Histórias de Moradores de São Roque

Esta página em parceria com o Museu da Pessoa é dedicada a compartilhar o acervo de vídeos e histórias com depoimentos dos moradores.

História do Morador: Otavio Mario Guzzon
Local: São Paulo
Ano: 22/11/2013




Química de vida

História:

P/1 – Bom dia Otávio.
R – Bom dia.
P/1 – Nós vamos continuar, eu vou fazer algumas perguntas, que eu já te fiz lá, mas é importante ficar registrado. Eu queria que você dissesse o seu nome, local e data de nascimento.
R – Meu nome é Otávio Mário Guzzon. Eu nasci em São Roque, em 17 de junho de 1948, e você fez outra pergunta...
P/1 – Local e data... E qual o nome dos seus pais?
R – Meu pai é Otávio Guzzon, nascido em São Roque também, e minha mãe é Amábile Zan Donado Guzzon, também nascida em São Roque.

P/1 – E Otávio, me diz uma coisa, você chegou a conhecer seus avós?
R – Não, meu avô... aliás, conheci os meus avós por parte materna, meu avô por parte materna. O meu avô por parte paterno ele morreu, eu tinha um ano, quando ele veio a falecer, então...
P/1 – E como era o nome dos seus avós por parte de pai.
R – Por parte de pai, aliás, você me desculpa, aminha avó, por parte de pai, ela veio a falecer eu tinha dez anos. Meu avô era Rômulo Guzzon, e a minha avó, agora está me escapando.
P/1 – Não tem problema.
R – Daqui a pouco eu lembro o nome dela.
P/1 – E por parte materna?
R – Por parte de mãe, era... puxa vida... agora deu um branco...
P/1 – Não tem problema.
R – Daqui a pouco eu lembro.

P/1 – E você sabe as descendências...
R – Todos eles italianos.
P/1 – E de que região da Itália?
R – O meu avô, por parte de pai, era de Adria, e a minha avó, do Luca. Agora, por parte de mãe, eu não sei se eles eram da região de Toscana, ou do Luca também. Porque tinha uma região da Itália que predominava em São Roque. Era um pessoal que os imigrantes que predominavam em uma certa região da Itália, mas agora não...
P/1 – E você sabe por que eles vieram para o Brasil, ou não?
R – Não. Não. O meu avô, por parte de pai, ele era membro do Exército Italiano, isso... eu sabia disso. Então, eles montaram, como eles vieram para São Roque, eles montaram uma oficina, porque na época de charrete e carroça, aí com a modernização começou a chegar os veículos e eles foram passando a profissão mecânica, mas inicialmente era para mexer com carroça e charrete.
P/1 – Então, o seu pai também trabalhava nessa oficina?
R – Trabalhava. Ele nasceu, praticamente na oficina, que era uma casa ao lado da oficina. Agora, o meu avô, por parte de mãe, que ele tinha uma fecularia, ele beneficiava arroz e fazia canjica, e farinha de milho.

P/1 – E todos eles nessa região, lá em São Roque.
R – Tudo em São Roque, tudo em São Roque.
P/1 – Você tem irmãos, Otávio?
R – Tenho, tenho.
P/1 – Quantos irmãos você tem?
R – Eu tenho uma irmã, Meire Dalva Guzzon, ela trabalha aqui em São Paulo, ela trabalha em uma empresa de projetos. Eu tenho uma irmã, essa minha irmã Meire que eu comentei com você, é casada com um médico, que fica em São Roque. Eu tenho outra irmã que mora em São José do Rio Preto, que é médica, casa com um médico também, e tenho o meu irmão Vitor, que é o caçula, que ele trabalha em uma importadora aqui em São Paulo.
P/1 – Otávio, me diz uma coisa, você lembra da rua e da casa onde você nasceu, onde você passou a sua infância?
R – Sim.

P/1 – Como é que era essa casa, essa rua, descreve prá gente.
R – Era rua Padre Anchieta, bem no início da Rua Padre Anchieta, senão me engano, eu não tenho bem certeza se o nome era Padre, mas eu me recordo da casa perfeitamente, fica próximo dos Lagos dos Mendes. Então foi, porque na época, quando eu nasci, eu e a minha outra irmã, nascia-se em casa, não tinha esse negócio de hospital ainda, era a parteira. E a minha parteira foi a Nhá Vita, e da minha irmã, também Nhá Vita. Mais de sessenta por cento da população são roquense nasceu na mão de Nhá Vita, inclusive tem um restaurante em São Roque, se vocês tiverem oportunidade, que é um restaurante onde se chama Casa Antiga, que é onde a Nhá Vita morava. Então tem a história dela atrás do menu, tem lá a história dela.
P/1 – E como é que era, sua mãe contava prá vocês como é que foi esse parto, ela falava?
R – Não, não chegou a tanto não... (risos).
P/1 – E me diz uma coisa, como é que era essa casa, conta prá gente, descreve prá gente...
R – Ah, era uma casa, era uma casa, não era deles, era alugada. Era alugada de uma espanhola que morava ao lado. E era uma casa, assim, meio de fundo, está até hoje lá, está até hoje, mantém todas as características... mas, meu pai construiu a casa, nós fomos para casa, e eu já tinha uns seis anos, e nós fomos prá outra casa.
P/1 – E essa outra casa, aí era uma casa própria de vocês?
R – Já casa própria.

P/1 – E onde era essa casa?
R – Essa casa fica na rua Padre Marsal, 398.
P/1 – Como é que era essa casa? Era uma casa grande...
R – Casa grande, casa grande... mas como toda casa antiga, uma casa mal dividida, que os quartos eram todos prá sala, tem um banheiro só, então...os quartos grandes, a sala grande, e tem só dois quartos, não tem três quartos, o banheiro enorme, mas só tinha um banheiro, então...
P/1 – E como é que era o cotidiano nessa casa? Com a família nessa casa, que você descreve que você tem uma lembrança tão boa. Como é que era o cotidiano?
R – Você fala da minha casa atual...

P/1 – Não, não, na sua casa quando você era criança, na sua infância.
R – Ah, era uma, embora seja no Centro de São Roque, se você for lá (____________), mas não era asfaltada e chamava-se... hoje chama-se Rua Padre Marsal, mas chamava-se Rua do Gado. Por que Rua do Gado? Por que passava, porque naquele tempo tinha um matadouro em São Roque, e os bois que desciam, passavam por ali, porque para cima tinha uns pastos, então falava Rua do Gado, e passava tropa também, naquele tempo tinha muito tropeiro que passava com tropa de burro, e utilizavam essa rua. Imagina, que prá ter esse nome, Rua do Gado, e depois mudaram, possivelmente mudaram para Rua Padre Marsal, mas eu lembro que tinha a plaquinha lá ainda, Rua do Gado.

P/1 – E como é que era o cotidiano, vocês levantavam e iam prá escola, iam à tarde prá escola...
R – Sim, porque a escola ficava perto da minha casa, fica em um quarteirão ao lado, Professor Bernardino de Campos. Então a gente ia cedo prá escola, tanto eu como minha irmã, que meus irmãos eles nasceram, foram bem espaçados. Então era eu e minha irmã... eu lembro que eu fazia o Jardim da Infância, naquele tempo você botava até um avental prá ir ao Jardim da Infância, eu lembro das minhas professoras de primário, que era... começou com a Dona Vicentina, depois foi Osmar Bocatto. Dona Vicentina morreu a pouco e Osmar Bocatto está vivo até hoje. Depois foi... porque no Grupo tiveram várias substitutas, que não conseguiu firmar uma professora, e no quarto ano, tinha a Hilda Bocatto, que vinha a ser parente do professor do segundo ano do grupo. Tem uma característica em São Roque, todo mundo é parente de todo mundo, você não pode chegar lá e falar mal porque você está falando mal de algum parente, é impressionante. Você entendeu? Então,
P/1 – E me diz uma coisa, como é que...e nessa escola o que te marcou mais nessa escola, esses professores, o que marcou para você nessa fase da escola, que você conviveu com esse grupo?

R – Esse grupo ele era interessante, ele tinha um corredor no meio, quando ficavam as classes (____________), ao lado. E você tinha na parte da manhã, você tinha... tinham as classes mistas, que tinha metade meninas e metade meninos, e na parte da manhã era até o segundo ano do grupo, e na parte da tarde, senão me engano, era o terceiro (____________) do grupo, não tinha o ginásio, ficou um tempo nessa escola, e depois foi lá para o Horácio Manley Lane, onde está bate hoje. Mas tinha estas características. Mas uma coisa que me marcou muito, que você comentou agora, foi o que não existe hoje nas escolas, antes de começar as aulas, cantava-se o Hino Nacional. O pessoal se perfilava lá, aquele negócio, ficar eqüidistante um do outro e tal, e cantava-se o Hino Nacional. Então todo mundo sabia o Hino Nacional, assim, muito fácil, porque era obrigado a cantar. Tinha o Hino à Bandeira, que eventualmente se cantava também, então tinha tudo isso, coisa que não se vê hoje. Então, isso me marcou bastante.
P/1 – E nessa coisa da sua casa, você falou que ia pelas manhãs à escola, e aí como é que era... vocês almoçavam juntos, a oficina do seu pai...
R – Almoçávamos juntos...
P/1 – A oficina do seu pai era perto?
R – Almoçávamos juntos porque a oficina do meu pai era próximo. Porque o meu avô, o que ele fez? Ele comprou terrenos para os filhos, aquele negócio ainda meio patriarcal. Ele comprou tudo próximo a oficina. Todos eles moravam próximos à oficina. Então, todos eles iam almoçar em casa, almoçavam com a família, e fazia-se questão de todo mundo sentar junto para almoçar. Isso, tanto o almoço quanto a janta, e o meu pai sempre teve um lugar à mesa, que até hoje continua, sempre sentou naquele lugar, aquele lugar era dele, não era para sentar, quem era prá sentar era só ele quem sentava naquele lugar. Então algumas coisas que a gente guarda ainda.

P/1 – E me diz uma coisa, como é que era, quais eram as brincadeiras favoritas nessa fase inicial da sua infância. O que... você lembra das brincadeiras, o que você fazia lá.
R – Era jogar bolinha de gude, jogar pião, aí quando eu estava no terceiro ano do grupo eu ganhei um cavalo, que meu pai não queria muita dor de cabeça e me deu um cavalo. Então ele gastava mais na farmácia com o cavalo, do que com a gente, era um pangaré, que meu Deus do céu, o cavalo só ficava doente (risos), até que ele vendeu. Mas na época, todo mundo tinha cavalo, toda a rapaziada tinha cavalo, que não tinha a quantidade de carro que tem hoje, embora São Roque tenha ainda muitos haras, muitos haras. Mas isso foi que... as brincadeiras de toda criança da época, ir caçar passarinho com estilingue, que também não tem mais hoje...
P/1 – Vocês nadavam no rio, como é que era
R – Tinha um rio, que passa na cidade, que a gente ia caçar...pegar cascudo, e nadava no rio também. E eventualmente a gente bebia daquela água também. E não fez mal prá ninguém porque está todo mundo vivo até hoje (risos). Você entendeu? Não era tão limpo o rio, e logo depois surgiu o Grêmio Sanroquense, que tem até hoje, nasceu o nosso clube e daí nós passamos a freqüentar a piscina. Aí já virou um luxo.

P/1 – Em toda fase inicial vocês brincavam muito na rua...
R – Sim...
P/1 – Bola de gude...
R – Existia, sabe... existia uma segurança total. As casas tinham os muros baixos, então existia uma segurança total, não existia maldade, não tem o que tem hoje. Isso há 50 anos atrás, 52 anos, 53 anos atrás não tinha o mal que tem hoje.
P/1 – Então, assim, tinha muito essa coisa... então quando você ia para a escola você almoçava com os seus pais, e que horário que vocês faziam a lição, tinha um horário para se fazer a lição?
R – Sim, a parte da tarde era para fazer a lição. Eu sempre estudei na parte da manhã, sem estudei na parte da amanhã. Inclusive quando o... na época tinha, vocês não vão se recordar, lógico, prá você entrar no ginásio você tinha que fazer a Admissão, não entrava assim, do quarto para o quinto ano, você tinha que fazer a Admissão prá ver se você ia entrar no ginásio. Porque só tinha o ginásio. Em São Roque, nada em São Roque só tinha... em Mairinque não tinha ginásio, Alumínio não tinha ginásio, então todo o pessoal vinha estudar em São Roque. Então um número de alunos prá um ginásio era muito grande. Então existia uma peneira prá qualificar as pessoas, e tinha um determinado, não me recordo o número de pessoas que podiam acessar o ginásio. Então, realmente, havia uma certa dificuldade, era muito puxado, era muito puxado, prá você conseguir entrar no ginásio de São Roque, tanto é que na época, muitos amigos meus, que terminaram o científico conseguiram fazer uma Politécnica, sem um... sem fazer cursinho. Fazia direto. O pessoal vinha aqui e fazia direto, prestavam o vestibular e conseguiam entrar na USP.
P/1 – E ai, então, assim, você estudou muito prá fazer...
R – Não conseguia passar.

P/1 – Você não conseguia passar...
R – Não conseguia passar. Aí, fui para ao Seminário. Fiquei três anos no seminário de Ibaté. O Seminário de Ibaté, porque Ibaté é um Bairro que tem próximo a São Roque. E eu fui prá Ibaté, fiquei três anos lá. Daí eu falei: “Não tenho jeito para ser padre, não é a minha cara.” (risos) Aí eu peguei, voltei prá estudar no Horácio Manley Lane, fiz o terceito e quarto ano, fiz o terceiro ano no Manley Lane.
P/1 – Ah, então você fez o ginásio, você estudou nesse seminário, e depois o colegial você terminou nessa outra escola. É isso?
R – Exatamente. Eu fiz no Barão, o Barão do Rio Branco era uma escola que estava começando a surgir prá fazer frente ao Manley Lane. Então ali você já fazia, ao invés de você fazer o científico, na época era científico ou normal, normal para quem queria ser professor, e científico para quem queria fazer uma engenharia, enfim, outra atividade. E aí, fez a... alguns empresários fundaram o Barão do Rio Branco, que hoje é o Objetivo. A escola Barão, ela... não sei se era Barão do Rio Branco... era Barão do Rio Branco mesmo, ela fazia... você fazia a parte de contabilidade, e eu fiz contabilidade nessa escola. Daí eu fui fazer química em Sorocaba.
P/1 – Vamos voltar um pouquinho, Otávio. Nessa fase de escola, do primeiro grau, você citou alguns professores, e aí, quando você não conseguia entrar para o ginásio, como é que você decidiu, quem decidiu que você deveria ir para o colégio, para o seminário?
R – Advinha? Meu pai (risos) Eles falaram assim: “Olha, você vai ter que fazer um estudo bom, fazer um estudo bom e você não quer ser padre?” Eu não tinha muito escolha, né. Não tive muita opção. Não tinha (risos) um lugar... eu fui pro seminário, a princípio achando que: “Bom, pode ser que até eu venha a ser padre, um bom padre, um bom padre.” Aí eu cheguei lá, era puxado, realmente, o seminário era de um rigor a toda prova. Você levantava quatro horas da manhã, quatro e meia da manhã. Você tinha que arrumar a sua cama, você não conversava. Nós ficávamos em pavilhões... eu ficava em um pavilhão, tinha três recreações, não sei se tu estou pulando alguma fase... Então você tinha três recreações: São Domingos, que era um Santo, foi um Santo menino, São Luís que foi um Santo adolescente, e São José, que já foi um Santo adulto. Então, eu era do São Domingos, porque eu era um menino ainda. E nesse... nesse dormitório, nós éramos em 90 crianças, no São Luís era um pouco menos, e no São José menos ainda. Porque conforme ia passando, a turma ia saindo, e todo mundo chegava no São José, tinha lá uns 20. Começava com bastante e ia... o pessoal ia saindo. E até hoje a gente se reúne. Nós fazemos reuniões ainda, no seminário. Lá do Ibaté, o pessoal se reúne ainda. A cada dois anos nós fazemos as nossas reuniões. Toda primeira sexta-feira do mês tem uma reunião aqui em São Paulo, em uma churrascaria, que eu não vim ainda. Eu vinha, agora, sexta-feira era para eu comparecer, mas vai ter uma... vai ter um outro compromisso em São Roque e não vai dar para vir, mas eu quero começar a participar.

P/1 – Me fala uma coisa Otávio, você estava contando um pouco como era o cotidiano desse dia a dia nesse seminário. Então levantava-se lá pelas quatro e meia da manhã, e o que vocês iam fazer lá pelas quatro e meia da manhã?
R – Era bem preenchido (risos). Você se lavava, arrumava a cama, você ia prá missa, tudo em silêncio, ninguém falando, rezava-se a missa, se comungava e tal. Aí você ia tomar o café da manhã, tudo em silêncio. Sentávamos em dez pessoas em cada mesa. Nós éramos 120 jovens, que estudavam no seminário, aproximadamente. De 180 a 190, chegou até ter 200. Tudo em silêncio. Aí, vinha um filão prá cada um, vinha um bule de quase cinco litros de café com leite, que a turma se alimentava, a turma... E aí você tinha... acabava o café e você tinha 20 minutos de recreação, que essa recreação era para esticar as pernas, então ali você podia falar. Aí você falava: “blá... rararara...” todo mundo queria falar tudo ao mesmo tempo (risos). Aí você passava, e ia pro estudo, aí não se conversava mais. Aí você ficava até às 11 horas. Acabava o café às sete e meia, por aí, ia até as 11 horas, ficava estudando, tendo aula junto. Aí você tinha o almoço, tudo isso em silêncio. Eventualmente, eventualmente dava-se um “deu graças”. O que era esse “deu graças”? Você podia conversar no almoço, mas normalmente ficava todo mundo em silêncio. Ficava lá um dito cujo lá na frente, contando uma história, lendo um livro, contando história e tal e você almoçando. Aí após o almoço, você tinha meia hora de recreação. Aí você ia jogar um vôlei, um espiribol, um basquete, qualquer coisa assim, que tinha um pátio muito grande. Todo o seminário é em “U”, é uma característica. Então no meio desse “U”, você tinha lá as atividades. Aí, depois dessa meia hora, você ia estudar novamente. E aí tinha o recreio grande na parte da tarde, e esse recreio grande era uma hora. (risos) Você vê que não é fácil não (risos). Aí você brincava, jogava bola, mas era... parecia tão grande esse recreio, parecia tão grande, que dava prá fazer tanta coisa. Aí você ia tomar um banho estudava mais um pouco, já faz bastante tempo, eu não me recordo muito bem... aí você rezava o terço. Rezava o terço, aí você já ia prá janta. Você jantava, aí não tinha mais recreação, você podia jogar um ping pong, e tal, mas coisas assim de 15 minutos e já ia dormir.
P/1 – E o dormitório eram várias camas n o mesmo dormitório?
R – Várias camas. Então, nesse que eu falei prá você, que ficava uns 80, era enorme, era muito grande. Uma ao lado da outra, um criado mudo, separando uma cama da outra. Aí você rezava, você rezava antes de você deitar, aí apagava-se a luz, e ninguém mais podia conversar. Não podia estar levantando também. Porque ficava um padre circulando a noite toda ali. Ficava circulando a noite toda nos dormitórios.

P/1 – E dessa época, quem foi o padre que mais te marcou, ou o professor desse seminário?
R – Não, porque o nosso Reitor era pessoa, assim, muito boa. Chamava Constantino Amstalden. Ele é falecido já. Foi uma pessoa que... foi uma pessoa, assim, muito rígida, pessoa, assim, que dava, inspirava uma confiança muito grande em toda a equipe. Era uma pessoa muito boa.
P/1 – E ele te marcou por quê?
R – Não sei, eu acho que por causa dessa, dessa postura dele, que eu nunca me esqueço (risos) que a primeira vez que eu cheguei lá, o primeiro dia que nós fomos dormir, então apagou-se a luz, apagava a luz, você tirava a roupa e botava o pijama. Mas eu era moleque de rua, era acostumado na rua, nadava pelado no rio, não tinha esse negócio. E eu fiquei de cueca, sentado na cama, e tal... Acendeu a luz, todo mundo “Uhhhh”, porque não podia ficar de cueca (risos). Meu short tinha um elástico enorme na perna, impressionante. Tinha uns negócios... aquelas coisas antigas. E eu sentado na cama, e quando acendeu a luz, todo mundo “uhhhh”. Falei: “O que foi?” “Você está de cueca?” Falei: “E daí? Eu não estou pelado.” Nossa, o padre achou ruim: “Não pode ficar assim, não sei o quê.” Falei: “Meu Deus do céu...” Você vai se adaptando, você vai... E eu, várias vezes fui chamado a atenção, porque eu gostava muito de assoviar, até hoje eu gosto de assoviar. E tinha uns corredores enormes, e eu saía, assoviando naqueles corredores, porque dava muito eco, então eu recebi muitas punições (risos). Eu era um cara (risos)...
P/1 – E quais eram as suas punições? Quando você...
R – Ah, escrever, por exemplo, não pode assoviar no corredor. Aí ficava eu escrevendo lá... (risos). Então tinha essas...
P/1 – Bom, e aí você ficou três anos no seminário, e aí você resolveu voltar prá... e como é que foi essa conversa com o seu pai, prá dizer que...
R – Entenda bem, você recebe... quando você fala seminários, a família ia visitar você uma vez por mês, a família ia lá, almoçava com a gente, e até hoje tem uns bancos, hoje estão tudo podres, estão tudo caindo aos pedaços, mas tinham umas mesas no meio do bosque, no meio dos bosque tinha as mesas com bancos, então, a família trazia frango, trazia essas coisas e você almoçava uma vez por mês. E você vinha prá casa 15 dias em julho, e um mês em janeiro. Então era isso que era o seu contato com a família. Então era rígida a coisa, não era simples, não era tão simples. E quando a coisa... depois de três anos eu cheguei para o meu pai e falei: “Pai, não é a minha cara, eu não vou ser padre. Se eu for padre eu não vou ser um bom padre. Eu vou ser sem vergonha. Então, é melhor eu não ser padre.” (risos). “Então, eu não quero ser padre.”
P/1 – E ele aceitou bem, a sua opinião...
R – Aceitou bem...

P/1 – E aí você foi prá esse colégio, o Rio Branco. Você foi terminar o colegial lá.
R – Terminei o quarto do ginásio. Faltava um ano e eu terminei lá Aí eu fui para Sorocaba fazer um curso técnico.
P/1 – E por que você escolheu fazer química?
R – Porque na minha cidade não tinha nenhum curso técnico, em São Roque não tinha um curso técnico nenhum. Não é que nem hoje, hoje um curso técnico brota nas esquinas, em tudo quanto é lugar tem. E naquela época não tinha. A gente só tinha em Sorocaba. E eu falei: “Bom, eu vou fazer um curso que me dê um futuro. Eu não quero fazer o científico. Depois se eu quiser fazer um curso superior, eu faço. Mas naquela época era difícil, naquela época era difícil. Quando eu que eu ia ser sem vergonha que eu ia ser padre, eu já tinha namorada, quando eu já era padre, quando eu estava fazendo o seminário. Não é que nem hoje (risos), cheio de padre pedófilo. Eu já tinha namorada quando eu já estava no seminário. E daí eu peguei e fui fazer química. Gostei, gostei de fazer química, mas nada assim que eu tivesse uma tendência: “Ah não, eu quero ser um... fazer laboratório.” É que eu só fiz o curso de química, e fiquei três meses no laboratório da CBA, porque quando você entrava na CBA, era de praxe você ficar três meses no laboratório, prá você fazer uns ensaios de laboratório, no departamento que você fosse. Eu acho que você vai voltar a fazer algumas perguntas antes, de eu entrar na CBA.

P/1 – Então, vamos lá Otávio... E como é que você ia, você ia todo dia a Sorocaba fazer o curso?
R – Todo dia, porque na época... vamos voltar a maquininha do tempo... nós tínhamos um depósito de vinho, em São Roque. E estava abrindo o depósito de vinho, e eu ficava tomando conta desse depósito durante o dia. E a tarde, depois das seis horas, eu fechava o depósito de vinho e ia para Sorocaba. Pegava... nós tínhamos uma Kombi, que pegava o pessoal, que fazia curso de administração de empresas, em Sorocaba, e eu que fazia química. Só eu que fazia química e o resto, fazia administração de empresas. E nós íamos nessa Kombi, e voltávamos a noite, sem problemas, tranqüilo.
P/1 – E me fala uma coisa, seu pai resolveu abrir um depósito de vinho por quê? O que... conta um pouquinho dessa história prá gente.
R – Por quê? A época, a minha mãe, com a minha madrinha, cismaram de trazer roupa de Sorocaba para vender em São Roque. Por que não tinha. Primeiro que você não tinha muitos carros, e você tinha que pegar o Expresso Brasileiro, da época, o Cometa. E realmente, prá você... e era assim... ia um a cada duas horas. Então para você ir para Sorocaba, ou vir para São Paulo, era uma aventura, era uma aventura. Então elas começaram a fazer o quê? Nós vamos começar a trazer roupa do Camiseiro, que era uma loja tradicional de Sorocaba, nós vamos trazer roupa de lá, roupa, sapato, tudo quanto era coisa que tinha nessa loja, um Magazine, trazia prá São Roque uma vez por mês, prá vender. E como as roupas vendiam bem e dava certo. Mas alugar uma área, um espaço, prá fazer uma vez por mês, alugar, pagar o0 mês todo prá fazer uma vez por mês, vamos fazer o seguinte: “Nós vamos alugar, a gente faz esse depósito de vinho e em paralelo a gente vende também as roupas do Camiseiro. E começou a fazer isso. Só que vendia bastante vinho na época. São Roque tinha uma certa tradição. Conclusão, foi-se... boboboó... afastando essa parte de vender roupa, enchia de coisa no meio da loja, do depósito, ficava um negócio... você não vendia nem vinho e nem roupa. Ficava um negócio meio... ficava um negócio meio ruim. Então eles optaram para ficar só com a venda do vinho.

P/1 – E esses vinhos vinham da onde?
R – De São Roque, tudo de São Roque.
P/1 – Tinha uma produção de vinho, então.
R – Tinha, tinha. Muitas marcas, muitas marcas. Então, realmente, vinho não faltava. Quantidade tinha, qualidade não era aquela “Brastemp”, mas quantidade tinha bastante. (risos)
P/1 – Então tinha muita plantação de oliveira?
R – Tinha, São Roque tinha uma certa tradição, principalmente a região de Canguera, onde se fabricava bastante...
P/1 – Tinha muita produção de vinho...
R – Exato.
P/1 – me fala uma coisa, como é que era o sei divertimento nessa fase de pré-adolescência, adolescência, quem eram os seus amigos, como é que vocês costumavam se divertir?
R – Eu tinha muita amizade com os meus primos, nós éramos muito chegados. A família era muito chegada. Tinha bastante amizade com meus primos, a gente ia caçar, sabe... de dar tiros mesmo, a gente ia pescar bastante, e os namoricos da época, lógico. Eu já tinha os namoricos, a gente... na época tinha o matinê, tinha cinema, todo o dia tinha cinema, todo dia tinha cinema. Isso nas férias, a gente freqüentava qualquer dia de semana, a gente ia prá Sorocaba...

P/1 – E me fala uma coisa, você me falou que vocês caçavam, vocês caçavam o quê, nessa época?
R – Juruti, inhambu guaçu...
P/1 – Inhambu guaçu. O que é inhambu guaçu?
R – Inhambu guaçu é um passarinho, do tamanho de um frango. Então tinha muito disso na região. A gente ia pescar na Represa de Itupararanga.
P/1 – E vocês pegavam muito peixes?
R – Pegava-se peixe, bebia-se bastante (risos).
P/1 – E esta coisa de... você falou que tinha um clube, que também vocês freqüentavam.
R – Esse clube era o São Roque Clube, o São Roque Clube não, o Grêmio Sanroquense, mas... isso quando a gente era muito menino, depois a gente foi se afastando, já não freqüentava mais. O São Roque Clube ainda não tinha sido fundado, e São Roque tinha um... sábados e domingos, a gente tinha, principalmente no domingo, no centro tinha aquela coisa de interior, as moças ficavam dando volta num horário, no sentido horário, e a rapaziada ficava anti horário. Então você via a moça duas vezes. Então tinha isso.
P/1 – Isso na praça?
R – Na praça. Isso era na Praça da Matriz, que hoje não tem mais. A Praça da Matriz hoje lá é um negócio esquisito que não dá mais prá dar volta. (risos). Mas tinha... isso daí era interessante, mas aquele monte de gente.... e tinha um alto falante, em cima do cine central e ficava tocando música, então o rapaz oferecia prá moça de vestido branco, de bolinhas vermelhas, “Pombinha Branca”, e tocava a música lá, e ficava todo mundo ouvindo a música. Interessava, né? (risos) Então toda vez tinha isso, o cara oferecendo as músicas, mas não tinha muita opção. Acho que o cara tinha dois long plays lá, então, era só aquilo que ele podia oferecer, não tinha opção de música (risos).

P/1 – E você lembra, qual foi a sua primeira namorada. Você falou que quando no seminário você já namorava. Quem foi a sua primeira namorada?
R – Essas coisas depois a minha esposa vai sacar da arma... (risos) Eu tinha os namoricos da época, namorei, assim, algumas meninas mais tempo, com outras menos tempo. Mas sempre teve os namoricos.
P/1 – E na época que você fez o curso técnico de química, como é que era a escola, como é que era essa coisa de estudar a noite/ Fala um pouquinho prá gente.
R – A Organização Sorocabana do Ensino era um... e até hoje é uma escola tradicional em Sorocaba, muito boa. E na época química você fazia três anos de escola, três anos e meio na escola e mais meio ano na empresa. Era um curso que dava, como se fala... tinha um embasamento muito bom. Um embasamento muito bom mesmo. Hoje química, a pessoa faz em três anos, aí tranqüilo, tem gente que faz... tem um pessoal que trabalhava comigo na fábrica que fazia três horários e conseguia química ainda, não sei qual é o milagre, mas conseguia estudar. Mas naquela época a (AOSA ?) era uma escola muito boa e repetia. Eu tive vários colegas que não passaram de ano. Várias pessoas, vários amigos meus que... chegavam... empacavam no primeiro ano, não passavam em química orgânica, ou não passavam em física, qualquer coisas assim, repetia-se de ano mesmo. Era uma escola muito boa.

P/1 – E quem foram os professores que te marcaram nessa época?
R – Ahhhh, tinha um professor, Oscar, que era o professor de laboratório. Ele era um cara muito sisudo, mas depois a gente foi se acostumando com ele. Era um cara muito bom, de coração grande, um cara que ajudava muito as pessoas, mas era um cara legal. O professor Oscar, esse cara me marcou bastante. E tinha um outro, que depois ele foi até candidato a vereador de Sorocaba, agora eu me esqueci o nome dele, agora me falha. Agora a minha avó chamava-se Francisca, e o meu avô chamava-se Ângelo, por parte da mãe. Então de vez em quando começa a vir...
P/1 – Me fala uma coisa, Otávio, e aí, vocês iam a noite com essa Kombi, que levavam vocês a Sorocaba e voltava depois. E como é que era essa coisa, essa viagem, era estrada de terra, como é que era?
R – Não, não, era pela Raposo Tavares. Era pela Raposo Tavares, e não tinha a Castelo Branco ainda. Então o movimento, a gente sempre foi meio preocupados porque aconteciam muitos acidentes, aconteciam muitos acidentes. Então, o movimento na estrada era muito grande, muito grande, mas o nosso motorista chamava-se Artur (Sulfiroso ?), e a gente... ele... todos esses ônibus que a gente ficou viajando era sempre com ele. Ele nunca faltou um dia, nunca perdeu horário, sempre foi um cara exemplar, sempre foi um cara exemplar.

P/1 – E aí você falou que desse curso você tinha três anos, e tinha mais meio ano em uma empresa... você era obrigado a fazer estágio?
R – Não, não, você ficava três anos... três anos e meio na escola e depois meio ano e empresa. Prá você se apresentar o seu relatório, prá depois você receber o certificado de químico.
P/1 – E em que empresa você foi trabalhar?
R – CBA.

P/1 – Ah, você entrou na CBA como estagiário.
R – Entrei na CBA. Não entrei na CBA trabalhando já, mas fazendo o estágio. Eu ia fazer junto com meu trabalho, mas eu acho que você vai chegar nessa parte, né?
P/1 – Então, como é... como é que você foi parar na CBA, conta prá gente.
R – Na CBA não era o meu intuito entrar, não era meu intuito, o que eu tinha? Vinte e três anos? De 71 para 48, 23 anos. A minha idéia sempre foi mesmo... “Vou prá...” naquele tempo estava saindo a Transamazônica, eram os anos da ditadura, então...acho que era o Geisel, acho que era o Geisel, né? Ia sair a Transamazônica, então eles estavam recrutando gente, e eu falei: “Eu vou prá esse negócio aí. Eu vou me aventurar nesse mundo aqui, eu vou prá Transamazônica.” Eu tinha visto, na época estavam construindo a Castelo Branco, e eu fiquei uma semana lá, com o pessoal, uns conhecidos meus, fazendo índice de compactação do terreno, prá ver do que se tratava isso. Falei: “Bom, alguma coisa eu vou saber prá ir à Transamazônica, pelo menos compactar terra eu vou saber. (risos) Fazer uns ensaios lá, e tal... Só que não tinha dinheiro prá ir prá lá, e os meus pais não iam me dar dinheiro prá fazer uma aventura dessas. Aí meu pai, minha mãe falou: “Por que você não vai na CBA? Vai lá que, inclusive você vai nos ajudar e tal e aquele negócio todo.” Eu falei: “Eu trabalhando seis meses e vou cair fora.” E na época tinha um amigo da família chamado Luís Mirim. Luís Mirim ele era um... ele tinha um escritório de contabilidade e ele era do Lions. E minha mãe falou, meus pais falaram com o Luís Mirim, e o Luís Mirim falou com o Doutor Antônio de Castro Figueiroa, que era o Diretor da Companhia, que também era do Lions, né. E ele deu um cartão, e não me pergunte onde está esse cartão, porque eu devo ter entregue lá no departamento pessoal, na época, prá fazer entrevista, e deve ter ficado por lá. Então estava no cartão mais ou menos este trecho, estava lá: “Salas fornos ou recuperação.” Salas fornos, onde eu fiquei e recuperação era um setor da fundição, onde você recuperava o alumínio, pedaços, fazia liga mãe, e fazia uns negócios lá. Mas era um setor bem separado da fundição. E eu fui fazer lá o teste admissional, e tal... e gente, nossa, tinha gente demais na fábrica, tinha muita gente. E a fábrica não era o que é hoje, lógico. Produzia-se na época 23 mil toneladas, 24 mil toneladas ano, na época. Hoje se produz 475 mil toneladas ano. Você vê que... o tamanho da empresa. Era menos gente, com menos gente. Eu fui lá e fui para o laboratório, o chefe do laboratório chamava-se Doutor José de Barros, e ele era um cara sisudo e nesses três meses ele não falou nenhuma palavra comigo. Ele entrava sempre firme, sempre... ia lá para o escritório dele, depois ele ficava dando uma volta no laboratório, você trabalhando, ele ficava olhando o que cada um estava fazendo e tal, mas não dirigia a palavra para ninguém. Mais tarde, eu vim pegar uma amizade com ele, mostrou-se uma pessoa maravilhosa, aquela era só uma fachada, ele é uma pessoa já falecido, era vegetariano e tem umas passagens desse... ele era farmacêutico, formado em Ouro Preto. Ele, o Doutor José de Barros, ele tomava uma água só de uma mina que tinha na estrada. “Mas Zé, por que você não toma água aqui da fábrica?” “Não, não. Água para mim só da mina.” Eu não sei por que cargas d’água, ele mandou uma vez fazer uma análise dessa água. Tinha lá “n” quesitos, como é que fala? Resíduos fecais na água que ele bebia (risos). Então, era a água que ele tomava era pior que qualquer outra coisa (risos). Então isso aí, todo mundo conta isso aí até hoje. Que era bem no caminho da Raposo, e tinha realmente uma bica lá, que todo mundo ia buscar água, até que mandaram fazer...
P/1 – Analisar...
R – A análise da água e coliformes fecais, tinha lá, saindo até pelo ladrão (risos), e lacraram a bica do José de Barros (risos). E daí, passados uns três meses, que você ficava no laboratório e cada um na sua área, por exemplo, eu ia na salas fornos, e eu fazia a análise do banho, que é um dos componentes onde você faz a eletrólise do alumínio. Quem ia prá aluminação, fazia os testes físicos, no vergalhão, e tal. Quem ia prá alumina, fazia os testes na soda, na lama, cada um na sua... prá se familiarizar com a área. E daí, depois de passado três meses, eu fui prá salas fornos.
P/1 – Você lembra... então assim, esse laboratório, ele era uma preparação prá que você fosse...
R – Eu diria mais um mimos, que nem um estágio. Então ficavam lá, dois três recém admitidos técnicos, ou quatro ou cinco, no laboratório. O laboratório tinha o seu quadro de funcionários, e a gente ficava ajudando nesses três meses que cada um ficava.

P/1 – Você se lembra do seu primeiro dia, Otávio? Vamos precisar trocar a fita, espera um pouquinho só. Você quer uma água?
(TROCA DE FITA)
P/1 – Otávio, você se lembra do seu primeiro dia de trabalho?
R – Eu lembro quando eu fui fazer o teste admissional. Eu cheguei lá, eu precisava... eu tinha um amigo meu que morava próximo à casa do meu pai, e ele trabalhava na alumina, e o nome dele era Nelson Oliveira. Eu liguei, pedi prá chamar o Nelson Oliveira, não sei com quem que eu vou falar. Daí o Nelson apareceu, veio lá da alumina, era longe e tal, e levou-me ao departamento pessoal, apresentou eu lá pro pessoal do RH, que hoje é RH e eu fiz o teste e tal. Mas eu não me recordo do primeiro dia, assim, com precisão, eu não me recordo. Eu lembro que eu peguei o ônibus da empresa, na cidade, em São Roque, fui prá lá, começávamos trabalhar às sete horas, às quatro horas saíamos. Na época a CBA não fornecia comida, não fornecia uniforme, eram épocas. Então você tinha que trazer a comida de casa. Então a minha mãe colocava no ônibus, ela colocava lá... tinha uma bolsa com um prato, com comida, e eu levava... e era assim o cotidiano. Passado um tempo, eu parei, comecei a comer, tinha uma padaria, comecei a comer um lanche na padaria. Falei prá minha mãe: “Não manda mais a bolsa, que chega uma hora, quando eu vou comer está frio, ou já pegaram minha bolsa.” Aconteceu isso também, de vez em quando sumia a bolsa, tinha alguém que falava: “Ah, hoje eu não vou levar, eu vou pegar de alguém.” “Então, vou começar a comer um lanche na padaria, que é melhor.”
P/1 – E Otávio, essa época do laboratório, você falou que você fazia análise. Como é que era, o que era esse processo que você fazia?
R – A gente pegava o material das salas fornos, que era o banho, ele vinha que nem um pedaço de porcelana, ele moía esse banho, e aí você ficava triturando ele com uma adequada solução até que você fazia uma certa leitura, e você mandava prá salas fornos e mediam que essa leitura, eles adicionavam um cloreto, que é um componente do banho, que você deixa o banho mais ácido, ou menos ácido, de acordo com a necessidade. Então a gente mandava esses resultados pras salas fornos e lá o pessoal técnico analisava essa planilha que a gente enviava.

P/1 – Que era prá, exatamente transformar, para poder fazer o alumínio?
R – Prá poder melhorar...
P/1 – A qualidade do alumínio...
R – A performance do forno. O fluido está ligado diretamente a performance do forno, melhora a sua eficiência, a redução do alumínio.
P/1 – Você lembra... então você nos disse que tinha um ônibus que passava pela cidade prá pegar os funcionários.
R – Pegava todos os funcionários.
P/1 – E também na volta eles traziam...
R – Também traziam os funcionários. Só que, por exemplo, tinha... hoje, se você pegar o ônibus que é fretado, ele vai em inúmeros lugares da cidade. Na época não. Ele botava todo mundo num lugar, em dois lugares, no máximo, e acabou. Daí você tinha que ir a pé, embora Prá mim era cômodo porque eu morava, ele colocava a gente no centro, e eu morava próximo ao centro, prá mim não era problema. Mas era... tinha ônibus da própria companhia, a companhia tinha seus próprios ônibus, mas eram poucos. Então eles mandavam, eles pegavam só o pessoal que fazia três horários, só das sete às 16, então, eu pegava esse ônibus fretado.
P/1 – E me diz uma coisa, você se lembra o que você fez com o seu primeiro salário?
R – Dei prá minha mãe. Até um pouco antes de eu casar, eu pegava uma quantia prá mim, e o restante eu dava realmente para minha mãe, pros meus pais. Falava: “Óh, fica prá vocês.” E eu pegava dinheiro suficiente que eu ia comprar meu cigarro, porque eu fumava na época, prá participar aí de baile ou qualquer coisa, ir ao cinema, mas eu sempre dava uma parte prá ele. Sempre dava uma parte prá eles.

P/1 – E quando você começou a trabalhar na CBA, o que foi feito com o depósito de vinhos, porque você que trabalhava no depósito.
R – Nós vendemos um pouco antes. Um pouco antes, nós vendemos em novembro de 1970, que eu me formei em 70, final de 70 eu me formei. Então, nós vendemos o depósito de vinho, e eu fiquei no máximo quatro meses, assim, sem atividade.
P/1 – E me fala uma coisa, depois que você saiu do laboratório você foi para sala de fornos.
R – Fui prá salas fornos.
P/1 – E o que é a salas fornos. Conta prá gente.
R – Salas fornos, na época eu fui trabalhar, tinha a sala 86 KA, KA quer dizer 86 mil ampères. Tinha a sala 64 mil ampères, que estava sendo construída na época, e a sala 32 mil ampères. A sala 32 mil ampères foi a primeira sala a ser montada na CBA, em 1955. Então, eles iam prá sala 64 sendo construída, e iam derrubando a sala 32 mil ampères. Então, prá dar continuidade a produção, porque prá derrubar as duas, eles iam perder a produção da sala de 32 mil ampères. Quando eu entrei na sala, eu entrei em agosto, final de agosto, que eu fui pras salas fornos, a salas fornos, eles tinham um problema seriíssimo na sala 64 e na sala 32. O equipamento que alimentava de energia as duas salas, ele não dava conta do recado, tanto é que quando chegou no final do ano, isso é uma coisa que o Doutor Antônio, nos eventos que ele participava, eles às vezes comenta, chamou o pessoal de italianos, que é a tecnologia era da Montecatini and Edison, da sala 64 mil, e eles falaram para o Doutor Antônio: “Olha, ou o senhor acaba com a sala 32, o senhor daqui a pouco não vai ter nenhuma nem outra, porque está prejudicando a sala 64. Como é uma sala nova é preferível o senhor acabar com a sala 32, 32 KA e ficar só com a sala 64.” E o Doutor Antônio comenta essa fase, esse evento que aconteceu, que o chefe da sala, na época, o senhor Guimarães, que foi meu chefe, ele chorou, porque realmente tinha fornos novos, tinha fornos que tinham acabado de serem reformados, que nem ligados estavam e foram demolidos. Tiveram que ser demolidos prá que a sala 64 fosse somente ela que passasse a produzir. Então perdeu um pouco da produção na época, mas foi benéfico isso, prá se poder continuar com a sala mais nova.
P/1 – Otávio, deixa eu entender um pouquinho, esses fornos é onde acontece o processo de transformação da bauxita em alumínio?
R – Não, da alumina, pro alumínio. Por quê? A bauxita, ela é beneficiada prá virar óxido de alumínio, ou alumina. Então você coloca no forno a alumina, o óxido e ele aí é eletrolisado e vira alumínio, ele vai virar alumínio.
P/1 – E esse... qual que era a...diferença de tecnologia que tinha nessa 32 ampères, 32 mil ampères e essa 64 mil ampères?
R – A sala 32, era uma sala muito antiga, a eficiência do corrente, prá própria tecnologia era muito baixa, era muito baixo, e a sala 64, uma sala mais moderna, uma sala com eficiência maior, que com o sistema de pontes rolantes mais eficientes, com o sistema de corrida de metal mais eficiente, com uma mão de obra menor. Então tudo isso era muito, com muito menor custo, você ter uma sala de 64, do que ter a sala de 32.

P/1 – E, explica prá gente como é que é o processo. Então, você entra com a alumina dentro de um forno, que ele...
R – São muitos fornos. A CBA tem 1508 fornos, hoje. Então você entra em uma sala, a sala, assim, tem praticamente um quilômetro de extensão. São pavilhões de um quilômetro, por 25, 24, 25 metros de largura, aproximadamente, 24 ou 25 metros de largura. E os fornos são todos em linha, são todos ligados em série, e com corrente continua. Então você está com 127 mil ampères, hoje, em cada salas novas, você tem hoje na CBA salas de 90, a sala de 70 e a sala de 127. São 127 mil ampères. A energia consumida pela CBA hoje, ela só perde prá capital São Paulo, ela consome mais que Campinas, mais que Ribeirão, mais que as grandes cidades, só a capital São Paulo consome mais energia que a CBA.
P/1 – E, então, por isso a necessidade de ter uma hidroelétrica junto a produção.
R – Várias hidroelétricas, várias hidroelétricas. A CBA, o que ela tem? Ela tem, puxa vida, não vou me recordar agora de todas, não me recordo se são 18 hidroelétricas, mas ela tem, o próprio sistema dela, o próprio sistema dela que é Itupararanga, Fumaça, França, Alecrim, a Barra, essas usinas, são todas elas interligadas, e a CBA tem usinas fora, porque o que ela faz? Ela faz a troca, então ela joga no outro sistema, ela faz a troca de energia. Então, o consumo da CBA hoje deve bater em 880 megawatts, é um consumo espantoso, é espantoso o consumo de energia na CBA. A CBA hoje é o maior produtor de alumínio da América Latina, de alumínio primário.

P/1 – Vamos voltar um pouquinho prá essa coisa do... pro leigo, que não entende nada da sala de fornos. Então, esse forno, eles são fornos... do que ele é produzido esse forno, de tijolos?
R – Exato, vamos lá...
P/1 – Como é que entra o alumínio, conta esse processo prá gente.
R – Você tem o anodo, ele tem, que é uma camisa que mantém esse anodo, é uma fôrma, onde você coloca a pasta anódica, onde você tem as pontas anódicas, que além de dar passagem de corrente, também ela sustenta o anodo. Não é a camisa que sustenta, são as pontas anódicas. A camisa, simplesmente, ela dá forma ao anodo, porque tem dois tipos de fornos: o anodo Söderberg, e o anodo pré-cozido. O anodo Söderberg ele tem, ele faz o auto cozimento da pasta. Você joga a pasta crua e ele vai formando o anodo, ele vai cozendo essa pasta. O pré-cozido não, o pré-cozido você faz o cozimento fora, os blocos de anodo fora, e traz ele já pronto pro forno. A CBA não tem essa tecnologia, o cozido, eu estava falando prá você, quem em uma das viagens que a gente fez prá Europa, junto com o Diretor, foi prá ver, prá nós ver a viabilidade de colocar na CBA o pré-cozido. Só que prá colocar o pré-cozido, nós teríamos que ter uma produção aí, de no mínimo 250 mil toneladas ano do forno pré-cozido, prá ele ser viável. Porque é muito caro você montar uma sala fornos de pré-cozido. Então, você tem o anodo pré-cozido, o anodo Söderberg, onde tem as pontas, embaixo você tem uma camada de banho. Esse banho o que é? É a criolita fundida, que compõe aproximadamente uns 82 por cento de criolita fundida. Você tem 11, de dez a 11 por cento, de fluoreto, você tem de cinco a cinco e meio por cento de fluorita, e em média cinco por cento de óxido de alumínio, nesse banho. Embaixo, você tem uma camada de aproximadamente 40 centímetros de alumínio líquido. Em cada forno você tem que ter, essa quantidade de alumínio líquido, de aproximadamente regido ao redor de dez a 11 toneladas, constante. Porque é o que dá o equilíbrio térmico no forno, o equilíbrio magnético no forno. Está tudo interligado nesse volume de metal que fica. Um forno, que nem hoje nós temos na CBA, de 127 mil, o calor é de 127 mil, ele produz, em média 930 quilos por dia. Então, ele produz 930, então como ele é medido todo dia, ele aumenta aí um centímetro e meio, dois centímetros por dia, nesse volume. Então você tira só os 930, e você deixa lá as 10 toneladas, as 11 toneladas. Você não pode entrar nesse lastro, você não pode tirar esse lastro do forno.
P/1 – Aí ele produz, e aí sai o alumínio, como é que é o processo?
R – Você aspira isso daí, por um sistema Venturi. Você introduz o bico no frio metal e aspira esse metal, encadeia o sistema de ar comprimido, e é 24 horas funcionando. Isso não pára, é 24 horas... Aliás, um forno de alumínio você não pode desligar, por exemplo, se você tiver... que nem, o ano passado , em novembro, que nós tivemos uma interrupção, tivemos o apagão, e esse apagão, nós ficamos lá na fábrica, nós conseguimos botar, colocar as linhas funcionando somente às seis horas da manhã. A CBA teve uma perda de produção, na casa de... eu não me recordo com precisão, foi quase a produção do... foi mais da metade da produção do dia, que hoje está produzindo um mil e trezentas toneladas, foi mais ou menos umas 650 toneladas nós perdemos de produção. E outra coisa, quando você pára o forno, o que acontece? O metal vai congelando, o banho vai congelando, e esse banho, ele líquido é um condutor, conforme ele vai esfriando, ele vai aumentando a densidade ele vai dificultando a passagem da corrente. Conclusão, a hora que você liga as salas, aumenta tanto a tensão, que ela pode desarmar. Então, é um trabalho exaustivo, precisa ser feito com muito cuidado, senão a gente não consegue religar a sala. Então, é religado em partes, você vai ligando um pouco por vez, demora três ou quatro dias prá você religar uma sala, dependendo da extensão desse desligamento. Inclusive, eu comentei, eu acho que eu comentei naquele questionário, que eu fui para a Albras. Não sei se você está lembrada. Que em 1991 tece uma queda nas torres de Tucuruí, e a Albras ficou desligada 12 ou 13 horas, e lá é o sistema de pré-cozido, e eles pediram ajuda pra CBA, veio ajuda dos Estados Unidos, veio ajuda de vários lugares, não só do Brasil como do exterior, prá ajudá-los a colocar essa linha funcionar novamente. Eles tiveram prejuízo de milhões, e toda vez que você tem um desligamento prolongado, você também encurta a vida do forno em si. Porque o sistema de refratário, tudo aquilo ali existe uma contração e aquilo existe e pode vir a perfurar o forno. Um forno desse dura em média dez anos, funcionando ininterrupto. Se você tem um desligamento, com certeza você vai perder uma parte dessa vida. Um forno desse, hoje, prá ser reformado ele fica perto aí de uns 130 mil dólares, 140 mil dólares, para você reformar um forno desse. Então você vê que é um custo muito alto.

P/1 – Otávio, a matéria prima, prá produção, da onde vinha essa matéria prima que fornece prá CBA.
R – Entenda bem, você tem vários, a CBA, a Votorantim tem muitas jazidas espalhadas. Você tem, quando a CBA começou, o início da CBA foi por que você tinha em Poços de Caldas, você tinha a jazida de bauxita, e o alumínio ficava numa seleção estratégica. Então começou a fazer aqui, começou a trazer o minério de Poços de Caldas e até hoje vem de Poços de Caldas. E você tem aqui, em Minas também... agora me foge... como é que é? Esqueço o local aqui, que nós temos aqui também da jazida, que a CBA tem aqui as jazidas... daqui a pouco eu recordo, uma grande jazida, também aqui, várias jazidas que vem o minério prá CBA. Hoje vem mais lá da... não é Paragominas, não é Paragominas, agora me falha, está me falhando aqui a memória, mas daqui a pouco eu lembro. Porque vem... só prá você ter uma idéia da quantidade de minério, hoje a CBA beneficia perto de sete mil toneladas de bauxita prá produzir o óxido que é necessário pras salas fornos. Porque prá você produzir um quilo de alumínio líquido, você consome dois quilos do óxido. Então a CBA hoje está produzindo mil e trezentas toneladas de alumínio líquido por dia, ela está consumindo duas mil e seiscentas, duas mil e setecentas toneladas de óxido, e perto de umas sete mil toneladas de bauxita. Então, os volumes são muito grandes, são enormes os volumes de matéria prima. Então, são gôndolas e mais gôndolas de trens e mais trens que vem de bauxita prá CBA.
P/1 – Então, na verdade, esse alumínio...
R – Esse minério...

P/1 – Esse minério, ele vem via trem. Ele é transportado via trem.
R – De trem. E um pouco de caminhão. Eventualmente ele vem um pouco de caminhão. Eventualmente.
P/1 – E, durante... ao longo dos anos da CBA ela foi adquirindo outros minérios...
R – Sim, sim...
P/1 – Outras minas, ou não?
R – As jazidas de Poços estão quase que... já nos finais de vida, já. Já está... além de ter uma eficiência... além de ter uma eficiência mais baixa. Agora, eu estou com dificuldade de lembrar, aqui perto do Rio Pomba, aqui...
P/1 – (Tamira ?), não...
R – Aqui na Baixada, perto da Baixada, divisa com o Rio, agora que... caramba... deixa eu ver, falo tanto isso na fábrica, agora eu esqueço...
P/1 – Não tem problema. Me fala uma coisa, Otávio, como é que era... porque você estava falando dos fornos, os fornos eles são produzidos no Brasil, eles são fabricados no Brasil, ou são importados?
R – Entenda bem, a grande parte, praticamente todo ele é feito no Brasil. Somente os blocos católicos que hoje não se fabrica mais no Brasil. Porque até uma parte deles era fabricada no Brasil. A Savoia produzia os blocos católicos, uma parte de tijolos, escamol, é comprado fora, uma parte de tijolos que vão. Mas a grande maioria da matéria, a parte metálica é fabricada pela própria ATLAS, que pertence ao Grupo, as barras católicas, são as siderúrgicas brasileiras que fornecem, a Villares, o coque, o antracito, o antracito é de fora também. O antracito é um mineral que vem de fora também, mas o piche é nosso. Quer dizer, a grande maioria, nós ficamos dependentes, somente da parte de blocos católicos.

P/1 – Esses blocos católicos vocês importavam de quem?
R – Vem do Japão, vem do Japão não, vem da China, uma grande parte da China, vem de uma parte da Europa, da França, da Savoia, da própria Pechinet, que mandava prá nós, e vinha uma parte do Japão também. Vinha uma parte do Japão, que é o... agora eu esqueci o nome, mas vinha uma parte do Japão, até hoje vem do Japão.
P/1 – E me diz uma coisa, como é que era, quando você entrou na CBA, como é que era o mercado internacional, na época, tanto comercialmente falando como tecnologicamente falando. Porque você me falou que essa fábrica, que essas salas de fornos de 62 mil ampères, ela tinha uma tecnologia italiana.
R – Italiana, Montecatini and Edison.
P/1 – Como é que era naquela época, o mercado internacional em termos tecnológicos e comercialmente falando?
R – Na época predominava o forno Söderberg, e a amperagem, quer dizer, quanto maior a sua amperagem, maior a sua produção. Então, um forno de 70 mil ele produz de acordo com 70 mil. Se você tiver um forno de 127 mil, ele vai produzir de acordo com 127 mil. Então, o Doutor Antônio queria fazer fornos maiores, os fornos de 127 mil, aqui no Brasil não tinha. Seriam os maiores fornos, que aqui no Brasil, em 1976, isso daí. E ele procurou a tecnologia Pechinet, ele procurou a tecnologia Pechinet, que até hoje, em questão de tecnologia, é uma das melhores do mundo.

P/1 – Que é francesa?
R – Que é francesa. Hoje está intercalando com a ALCAN, com a Nouvelle, Nouvelle Pechinet. E ele adquiriu essa tecnologia da Pechinet. Então foi por isso que eu fui fazer o estágio na Espanha, e uma parte na França, quje na Espanha já existiam os fornos Pechinet funcionando desde 1971.
P/1 – E essa pesquisa, quem é que foi fazer essa pesquisa no mercado internacional prá saber, e...
R – Doutor Antônio.
P/1 – Doutor Antônio?
R – Ele mesmo. Era ele que ia, ele que via, ele que decidia.
P/1 – E essa aquisição dessa tecnologia como é que era feita, essa transferência de know how, na época?
R – Entenda bem, eu era ainda muito novo de fábrica prá eu estar envolvido nisso, mas ele foi, ele viu os fornos em Norguet, que é próximo ali à região do (____________), próximo aos Pirineus, ele foi a Norguet e viu os fornos (a 105?), e ele adquiriu a tecnologia baseada nesses fornos que eram os melhores da época, e daí veio um pessoal da França, depois que nós fizemos (____________), o pessoal da França, nos ajudar a ficar durante um tempo, nos dando um suporte, prá que a gente desse continuidade após isso Uns seis meses, também não foi muito mais que isso.

P/1 – E nessa época você estava em que área da... você estava... dentro do seu processo de desenvolvimento, dentro da CBA, onde você estava, o que você estava fazendo nessa época?
R – Eu era assistente técnico da chefia, eu era assistente técnico da chefia da sala 64 mil ampères. Eu já ficava junto com o chefe. Na ausência do chefe, era eu quem assumia a responsabilidade.
P/1 – E qual que era a sua função, o que você tinha que fazer?
R – Eu fazia parte do processo, administrava o pessoal, matéria prima. Praticamente a gente administrava todo o departamento. Tanto a parte do pessoal de férias, tudo isso passava pela minha mão, na época.
P/1 – A parte técnica, você também já.
R – Também, toda a parte de processo, o processo da fabricação já participava ativamente disso.
P/1 – Era responsabilidade sua também?
R – Também.
P/1 – E aí, quando ele traz esses fornos de tecnologia francesa, você nos disse que veio um pessoal técnico da França...
R – Primeiro nós fomos para a Europa.
P/1 – E quem foi nessa época, como é que...
R – Na época fomos cinco pessoas. Quem chefiava essa equipe chamava-se Petrônio Maezano. Foi um engenheiro que veio de Ouro Preto, pra tomar... prá chefiar esse departamento. Ele é falecido. Aí tinha eu pelas salas fornos, Sérgio Esteves pelas salas fornos, que era técnico também, Domingos Caetano que era a parte de mecânica, que era o encarregado mecânico, uma experiência muito grande, falecido a questão de uns quatro meses, uns cinco meses, e Antônio Freitas, que foi pela sala pasta, que iria ver a nova sala pasta, também, que foi comprada junto. Que é a sala pasta da pasta anódica. Nós fomos os cinco, sem saber direito onde que era La Coruña, sem saber se era frio se era quente. Então, são épocas, que a gente não tinha... não se entrava no Google prá saber o que isso. Não tinha essa facilidade. Nós fomos ao final de fevereiro para lá, e voltamos no início de junho.

P/1 – E como é que foi esse convite prá você ir, como é que decidiram que você que deveria ir, como é que foi essa história? Conta prá gente.
R – Todo mundo queria pegar esse estágio, todo mundo queria pegar essa boca. Porque ia viajar para a Europa era uma coisa inédita, inclusive saiu no jornal da minha cidade que eu estava indo para a Europa, que eu ia ficar lá, aquele negócio todo. O cara vai fazer lua de mel vai para a Europa (risos). Então... era uma... todo mundo queria ser escolhido para ir para a Europa. E quando chegou, veio esse convite prá mim, lógico que eu fiquei muito orgulhoso disso, fiquei realmente... e foi aquilo que nós estávamos comentando, minha esposa estava grávida de oito meses, oito meses e um pouquinho, mas nem se tocou no assunto. Podia falar: “Puxa, mas você vai mesmo, você vai ter que...” Que nada, ninguém falou nada. Nem minha esposa, nem meus pais, nem os pais da minha esposa. Ninguém tocou nesse assunto: “Sabe, não seria bom você dar uma pensadinha aí...” Nada. Porque era uma chance inédita, ímpar, que eu não teria outra, talvez não tivesse fazendo esse depoimento se eu não tivesse ido nessa viagem.
P/1 – E como é que foi a viagem, conta prá gente. Quanto tempo você ficou lá, o que você percebeu de diferente, conta prá gente.
R – Eu tinha pavor de avião, nunca tinha viajado, eu tinha medo de altura, ainda por cima. E na época, não descia, o avião internacional não descia em Congonhas, nós não tínhamos o Viracopos ainda, não tínhamos ainda o Guarulhos. Nós não tínhamos o Guarulhos ainda. Então você tinha que fazer a ponte aérea São Paulo Rio, eu não entendo o porquê nós não tínhamos... nós tínhamos o Viracopos, mas Viracopos ainda não tinha os vôos internacionais, como se fala, comerciais. Podia talvez na época ter de transporte de carga, mas eu sei que nós pegamos a ponte aérea e fomos para o Rio. Chegamos ao Rio, fomos para pegar o avião às 11 horas, deu problema no avião. Falei: “É hoje, meu Deus do céu, justo o avião que eu vou pegar dá problema. Esse negócio não vai chegar lá.” (risos) Eu sei que, meia noite e meia, uma hora, nós embarcamos, eu não me recordo nem que tipo de avião que era. E nós fomos e descemos em Madrid, estava frio em Madrid, esperamos até umas quatro ou cinco horas no aeroporto de Madrid, para pegar um vôo para La Coruña. Só para você ter uma idéia, que a gente desconhecia para aonde nós íamos, a hora que nós começamos a sobrevoar La Coruña, é uma cidade costeira, falei: “Puxa, mas é um lago grande aqui hein? Caramba!” (risos) Era o Oceano Atlântico (risos). E chegamos a La Coruña, ficamos ao lado do campo do Deportivo de La Coruña, vocês devem ter escutado falar no Deportivo, uma região maravilhosa, pessoal muito bom, nós fomos muito bem recebidos, muito bem recebidos, o pessoal da fábrica... e uma coincidência, o Brasil tem muito galego, inclusive um grande amigo que nos ajudou muito mesmo, principalmente a mim que veio a minha casa posteriormente, ele já tinha trabalhado no Brasil, ele tinha estado na Coca Cola aqui em São Paulo. E depois ele voltou lá e passou a trabalhar na fábrica de alumínio, e eu peguei uma amizade muito grande com ele e com outras pessoas em La Coruña. E La Coruña tem realmente, eles têm lá um ditado, eles falam: “Em La Coruña ninguém é forasteiro.” Realmente, eles fazem amizade muito fácil, eles conversam muito com as pessoas, uma região muito bonita. Então realmente eu me senti muito a vontade.

P/1 – E como é que foi chegar a uma fábrica, na Europa, com uma tecnologia superior e que vocês estavam adquirindo.
R – Era muito superior realmente...
P/1 – Como é que era essa fábrica, o que tinha de diferente do que vocês estavam acostumados a trabalhar aqui?
R – Era uma fábrica com fornos muito maior, praticamente o dobro do que nós estávamos acostumados. O equipamento que eles tinham, eles trabalhavam com um equipamento chamado semi pórtico, que trabalhava sobre dois pneus enormes, quebrando... eu falei: “Isso aqui é uma maravilha. Isso aqui é uma coisa...” As pontes rolantes, todas elas com recursos, em relação às nossas, que ficam assim na sala 64, os recursos muito melhores, muito maiores os recursos. Então, realmente...
P/1 – Que tipos de recursos, Otávio, fala prá gente.
R – Por exemplo, você ficava numa cabine fechada, certo? Você não tinha fumaça dentro. A da sala 70, da sala 64 era uma cabine aberta. O cara trabalhava em cima do forno, e vinha todo o calor, todo o gás em cima dele. Então... até hoje, né... Então, era ruim... Aquilo me chamou a atenção. E como era uma coisa nova, e eu também era um cara muito novo na área, eu fiquei deslumbrado. Eu fiquei deslumbrado e inclusive nas cartas que eu mandava eu mandava, que eu mandava prá minha (____________), eu falava: “Ah, mas essa fábrica é muito bonita.” Trabalhava pouca gente, muito pouca gente, o pessoal realmente não faltava, eles não faltavam ao serviço. Um a coisa que chamava a atenção, que eles iam almoçar na fábrica e eles recebiam uma garrafa de vinho para almoçar dentro da fábrica. O cara bebia dentro, durante o serviço. E uma coisa que me chamou a atenção, uma vez estava frio, era uma região fria, nós estávamos lá em março, e eu estava ao lado do forno, assim, esquentando as mãos, aí veio o chefe da sala, o chefe chamava (____________), morreu até num acidente, morreu ele e a esposa, ele falou: “Otávio, você está com frio?” Falei: “Pô, estou com frio.” Então vem aqui, e fomos lá dentro tomar uma bagaceira no escritório dele. Então todo mundo bebia, mas existe uma conscientização, você pode beber até um ponto, não pode beber mais, senão vai ficar todo mundo bêbado. Então eles bebiam vinho, tomavam cerveja dentro da fábrica. Hoje não existe mais isso. Realmente, hoje essa fábrica de La Coruña pertence a ALCOA, e eles acharam por bem eliminar isso daí, por causa de segurança e alguns detalhes.

P/1 – Tecnologicamente falando, você falou que as esteiras, o que elas tinham de diferentes, fora essa cabine, o que mais...
R – Um exemplo, eles trabalhavam com semi pórtico. O semi pórtico, você conseguia fazer uma quebra do forno que você quebra aquela crosta com uma perfeição. Aqui na CBA você tem uns carrinhos quebra crosta, e esses carrinhos o cara ficava sentado em cima, e o negócio era totalmente aberto, era um negócio arcaico, ultrapassado, e aquilo lá prá nós, aquilo a gente ficava deslumbrado, ficava deslumbrado porque ele podia ser até automatizado. Se você quisesse melhorar você podia até automatizar aquele equipamento. Então isso aí realmente chamou a nossa atenção.
P/1 – E vocês ficaram lá quanto tempo, Otávio?
R – Nós ficamos lá, perto... uns três meses. Depois disso aí nós fomos pra Norguert , que era uma fábrica na França, próximo à (____________), próximo a uma cidade que nós ficávamos hospedados, em Norguet praticamente só tinha a fábrica, e nós ficávamos nessa cidade, uma pequena vila, onde praticamente todo mundo era funcionário da empresa. Norguet fechou, não existe mais.
P/1 – Era uma fábrica francesa?
R – Francesa, isso já era na própria... já era na França. Eram fornos, quase iguais que nós viemos a trabalhar depois.

P/1 – E aí, vocês voltaram para o Brasil...
R – Nós voltamos para o Brasil, e já estava fazendo a montagem da primeira sala que é a sala 1, já estava sendo montada. A sala 1 já estava sendo montada, estava iniciando a parte de prédio, já estavam as carcaças para os fornos, o pessoa já estava iniciando a parte da montagem. Nós chegamos aqui em junho, meados de junho, até o final, até novembro, eu fiquei ajudando n sala CT, na sala 64, fiquei ajudando na sala 6u, que tinha muita coisa prá fazer, tinha alguns problemas, então eu fiquei lá. Em novembro, realmente, aí eu fui definitivo prá sala 120 K1. Por que 1? Por que foi a primeira sala. Depois nós fizemos a sala 2, a sala 3, a sala 4, a sala 5, a sala 6, e a sala 7. Interrompemos no meio a sala 8, agora, por causa da crise, que já´estava em construção metade da sala.
P/1 – Me fala uma coisa, Otávio, nessa época, que foi a aquisição dessa nova tecnologia que era, que você falou que era... permitia uma produção maior, como é que era o mercado nacional frente ao mercado internacional. O Brasil importava, exportava alumínio...
R – São coisas que na época eu não estava tão, como se fala, tão ligado. Mas o mercado interno brasileiro carecia de alumínio, não tinha... o mercado interno não tinha alumínio, nós não... o Brasil não produzia o alumínio necessário. Tanto é que o Doutor Antônio sempre apostou em ele fabricar mais alumínio primário. Ele sempre apostou. Então, veio aumentando a produção ano a ano. A CBA veio crescendo dez por cento ao ano sem para. Isso é uma coisa que o Doutor Antônio sempre comentava. O que os chineses estão fazendo hoje, nós já fazíamos. Crescemos nove e meio a dez por cento ao ano. Sempre foi fazendo cada vez mais salas.
P/1 – E esse alumínio primário ele serve de matéria prima para produção do quê?

R – A CBA é a maior fábrica integrada do mundo. O que quer dizer isso? Ela recebe o minério, a bauxita e você sai lá na outra ponta, sai telha, sai papel, sai perfil, tudo o que você puder imaginar de alumínio, a CBA faz. A Tetrapak, essa caixinha de leite, a CBA que é hoje o fornecedor do material alumínio. E prá conseguir acessar esse mercado você precisa ter uma qualidade de produto muito boa, mas muito boa mesmo. Tanto é que todo o material da Tetrapak era importado. Hoje a CBA é o fornecedor único do Brasil. Então, você vê, quando eu falo única fábrica do Brasil, você quer tira de alumínio, a CBA produz. O copinho de água, que tem aquela parte de alumínio, a CBA produz aquilo ali. O papel de cigarro, a CBA produz. O perfil de janela a CBA produz. Então, a CBA produz tudo o que você possa imaginar. Essas cadeiras de alumínio, a CBA produz aquele material. Isso aí é de alumínio? A CBA produz isso de alumínio. Tudo o que você possa imaginar. Agora, o mercado... quando você exporta, quando você exporta, você estava falando em exportar, você tem, você está ligado ao LME, que é o mercado internacional, que rege o preço do mercado internacional. Se você importar o lingote, você não está agregando nada. Então, o lingote é uma coisa que você vende... vende o lingote no mercado interno, ou exporta, mas em quantidades pequenas. Na crise, a CBA chegou a exportar mais de 60 por cento da produção, principalmente o lingote. E se você pegar o custo de produção com o custo do alumínio na época, chegou a um mil e trezentos dólares, um mil trezentos e cinqüenta dólares a tonelada de alumínio no LME. Prá você produzir o alumínio em lingote você estava gastando um mil e setecentos, então você estava perdendo dinheiro. Então, realmente na crise foi um baque. Tanto é que fecharam muitas fábricas. Teve muitas fábricas no mundo que tiveram que fechar as portas.
P/1 – Vamos voltar um pouquinho antes de chegar nessa coisa, aí quando você volta, nessa época que você volta prá cá, que atividade você vai exercer, me conta um pouquinho da sua evolução profissional dentro desse processo aí, quando você voltou...
R – Eu voltei de assistente geral. Eu praticamente quando entrei na 120 eu entrei de assistente geral. Por que isso daí? Por que o engenheiro Petrônio, ele era muito doente, ele era muito doente, ele tinha uma diabetes que ele... praticamente ele morreu, ele morreu praticamente cego, não durou, a vida dele foi muito... ele morreu muito novo, então eu que praticamente assumia toda essa responsabilidade. Ele era uma pessoa muito boa, mas eu assumia toda a responsabilidade de processo, de pessoal, de consumo de matérias primas. Então aí que eu fui adquirindo esse know how, por assim dizer, prá ir subindo gradativamente de posição. E aí você ficou nesse forno, nessa sala forno, quanto tempo?
R – Na sala 1... aí veio uma equipe italiana, veio uma equipe italiana prá ajudar na sala 64, que a sala 64 já estava passando por uma fase difícil. Acabou passando por uma fase difícil, a produção não estava boa, veio uma equipe italiana, e essa equipe italiana, por bem, passou a ajudar na sala 120. Que a nossa equipe era muito pequena, era só um pessoal muito novo e então eles começaram a ajudar também na sala 120.

P/1 – E que tipo de ajuda eles trouxeram, então?
R – Ajudavam na parte de processo, principalmente na parte de processo, praticamente na parte de processo. Vamos trabalhar com mais fluoreto ou menos fluoreto, vamos aumentar o número de quebras, um vocabulário ligado diretamente ao processo. Em 1982 nós ligamos a sala 2, aí eu passei realmente a chefiar a sala 2.
P/1 – Vamos ter que trocar a fita.
(TROCA DE FITA)
R – Em 1982 partiu-se a sala 2. Eu fui chefiar essa sala. Praticamente eu fiquei sozinho nessa sala, administrando o pessoal, a equipe italiana dando um suporte e tal, mas eu que praticamente que administrava tudo, parte de produção, parte de pessoal. Em 1983, talvez, talvez não, eu digo prá você que foi talvez um dos maiores desafios que nós tivemos na CBA e eu participei disso e eu também falo que foi o maior desafio da minha vida nessa parte de forno de alumínio. No dia 23 de agosto de 1983, às duas horas da manhã, de um sábado para domingo, então duas horas da manhã do domingo, eu normalmente eu ficava sozinho porque a minha esposa vinha, ela pousava em, São Roque, mas nesse dia teve uma festa, no ginásio em Alumínio, Isaura Kruger e a minha esposa falou, ela dava aula, ela nasceu lá, ela falou: “Eu vou ficar aqui e nós vamos à festa lá em cima no Isaura.” Falei: “Tá bom.” E fomos lá. Aí viemos deitar era meia noite e meia. Quando foi duas horas o técnico da sala 2 me ligou desesperado: “Otávio, a sala caiu, a sala 1 caiu.” O termo cair em nosso vocabulário das salas fornos é desligar a energia. Eu falava: “Pede prá eles religarem.” “Não Otávio, caiu o telhado.” Eu fiquei mudo. E ele gritava do outro lado da linha, ele berrava que nem um condenado do outro lado da linha. Falei: “Meu Deus do céu!” O nome dele era Júlio Maria. O nome dele é Júlio Maria porque ele não morreu, estava vivo ainda. Peguei, me troquei, falei prá minha esposa: “Bem, aconteceu uma desgraça na CBA.” E eu morava próximo, eu morava na casa da companhia, na Vila Industrial. Saí, botando camisa, botando sapatão e cheguei lá... no que eu estava entrando já estava entrando um amigo meu que era chefe da sala 1, o Esdras Tomás e Pena, ele falou: “Otávio, o que aconteceu?” Falei: “Vamos chegar lá.” Mas o meu medo, como ele falou caiu, falei: “Meu Deus do céu, vamos chegar lá não vou ver meio mundo morto.” Agora você imagina, uma sala c de um quilômetro de distância, praticamente um quilômetro, 850 metros, todo o sistema de cobertura tudo com, como é que... tesouras metálicas, tudo coberto com alumínio, aqueles alumínios de uma altura lá de 25 metros. Falei: “Vou encontrar nego estourado embaixo.” Chegamos lá, aquele silêncio, tudo escuro, aqui tinha uma lanterninha, uma lanterninha lá. Falei: “Meu Deus do céu!” As tesouras chegaram a encostar no chão e não caiu toda a sala. Não caiu toda a sala. Caiu o centro da sala, mas uns dois terços da sala veio abaixo, mas encostado no chão. E, realmente, Deus é... sempre foi muito complacente... condescendente com a CBA, não matou ninguém, não feriu ninguém, não machucou ninguém, você entendeu? “E agora?” Aí chegou o diretor Antônio de Castro Figueiroa, e ele foi ligar para o Doutor Antônio... E foi eu e o meu amigo junto, o chefe da sala, o Esdras. E ele falou que queria falar com o Doutor Antônio. Primeiro ele pediu “n” desculpas de estar acordando o Doutor Antônio. “Doutor Antônio me desculpa, não sei o quê...” Ficou rodeando para falar que tinha caído a sala. Até que ele falou: “Olha, aconteceu uma tragédia, a sala 1 a maior parte do telhado caiu, nós estamos com a sala desligada, não sabemos como vamos fazer prá religar isso daqui, e o senhor tem que dar um pulo aqui, o senhor tem que vir aqui imediatamente.” E realmente, passado uma hora o Doutor Antônio estava lá. Nós ficamos andando com ele e como nós íamos fazer com aquilo ali? Nós não podíamos religar a sala porque como religar a sala? Então já se começou a ligar prá todo mundo, já começou... aquilo daqui a pouco estava todo o pessoal. Quando foi cinco horas da manhã, seis horas, estava todo mundo dentro da fábrica. E, outra coisa que veio acontecer na época, a gente tem uns barramentos de alumínio enormes, que a gente interliga, quando você vai partilhar a sala, você vai fazendo interligações, chama-se crossover. Na época, o Doutor Antônio falou assim: “Vamos fundir esse material.” Que estava tudo parado, há tínhamos ligado as duas salas. “Esse material aqui, esse material empatado, vamos derreter tudo e fazer produto.” Daí, estava eu e esse meu amigo, falei: “Ah, mas vamos deixar um aqui.” Que eram vários. “Vamos deixar um aqui, e qualquer coisa que venha acontecer...” Então foi a nossa sorte. E essa parte que não tinha caído o telhado, foi feita uma interligação... mas isso, um trabalho de gigante. Nós fomos conseguir colocar esse crossover, era uma hora da manhã de segunda-feira. Nós já religamos esses fornos, prá fazer um aquecimento e o restante da sala ficou desligado. Na época vários experts vieram visitar as salas fornos, e falaram: “Isso aqui é melhor destruir esse fornos, fazer uma demolição de todos os fornos e socar todos eles novamente, reformar todos eles novamente prá entrar em produção.” Ia ser um desastre, ia ser uma perda incalculável. E o Doutor Figueiroa, na época, nos reuniu e falou assim: “Nós vamos apostar em recuperar isso aqui. Eu quero falar com o Doutor Antônio que nós vamos recuperar essas salas, esta sala.” Falei: “Pode contar conosco.” Isso aconteceu no dia 23 de agosto, quando foi em novembro a sala estava todinha ligada. O telhado já tinha sido todo reformado, e nós não perdemos nenhum forno. Mas trabalhávamos... era 20 com nós, fizemos duas turmas de 12 horas, 12 por 12, e nós não parávamos. Repartindo forno, repartindo forno, fomos colocando todos os fornos prá produzir e todo esse tempo, lógico você repartia o forno e caía pedaço de anodo, coisa que é do próprio processo, ficar todo esse tempo parado. Nós não perdemos nenhum forno.

P/1 – essa coisa da perda do forno está ligado àquilo que você falou antes, que, assim, o forno não pode ser desligado?
R – Exatamente. Nós ficamos 45 dias com esses... nós ligamos menos de um terço, nós ligamos um quarto, precisamente um quarto da sala, nós ligamos, passadas 24 horas que caiu, nós ligamos um quarto. O restante ficou desligado. O restante ficou desligado. E outra, outra... outra sorte, ficou uma ponte rolante de cada lado. Se as pontes tivessem ficado presas, nós não poderíamos ter ligado os fornos, porque não teríamos como fazer troca de pino, fazer a troca das pontas (____________), nós não teríamos condições. Não tem o quê consiga arrancar aquilo fora. Tem que ter a ponte rolante. Então ficou uma ponta num extremo e a outra ponta no outro extremo, então nós conseguimos ligar essa parte da sala. E esses outros três quartos nós viemos ligar depois de 45 dias. Lógico, encurtou um pouco a vida dos fornos? Encurtou-se um pouco, mas, de ter que diluir todos os fornos... então esse foi um dos maiores desafios que nós passamos, assim, na parte de salas fornos.
P/1 – E aí, assim, você assumiu a sala 2, como é que foi o processo seu de... e aí, você passou a continuar viajando prá fazer...
R – Não. Eu fui em 91, que eu fui para a Albras, prestar uma ajuda para a Albras, porque tinha acontecido mais ou menos a mesma coisa que aconteceu na CBA. Só que lá não caiu o telhado, lá caiu uma torre de Tucuruí. Eles ficaram sem energia. Mas era uma outra dificuldade, eu vi que lá era uma dificuldade até diferente da nossa, na CBA. Era uma dificuldade até maior prá colocar o forno em funcionamento. Eles tiveram muitos prejuízos. Os prejuízos deles foram muito maiores que o da CBA, muito maiores que o da CBA. Aí em 96, em 1996, nós já estávamos com quatro salas fornos. Mas eu só olhava a sala 2. Nós já tínhamos as salas 1, 2, 3 e 4, a sala 86 e a sala 64, mas eu ficava só na sala 2. E aí, tinha uma tecnologia na Espanha, em La Coruña, que eles estavam desenvolvendo, que o Doutor Antônio mostrou-se interessado. Aí ele montou uma equipe, e nós fomos fazer uma visita às fábricas de La Coruña, e de (____________), em Astúrias. Ficamos lá uma semana, dez dias visitando essas fábricas, prá ver o que nós podíamos... e nós trouxemos muitas coisas boas. A gente tinha uma metodologia lá que, deu quatro anos a gente desligava o forno. Nós tínhamos um número de fornos para desligar por mês. Se o forno estava bom ou estava ruim, não interessava, nós desligávamos. Depois que nós voltamos da Espanha, nós passamos a desligar o forno só quando subiu o teor de ferro. Porque subiu o teor de ferro? Quando ele começa a subir o teor de ferro no alumínio, ele começa a passar de 030 e começa a subir, esse forno está com tendência de vazar. Então nós passamos a desligar o forno quando estava esse indício. E nós passamos o uso a CBA, que é uma das fábricas do mundo, a vida média dor fornos é uma das maiores do mundo. Realmente...

P/1 – E antes vocês desligavam, independente de estarem bons ou não, vocês desligavam.
R – Quarenta e oito meses é o tempo que eles duravam. Deu 48 meses, desliga. Se estava bom ou se estava ruim, não interessava, nós desligávamos. Era um processo nosso, era um processo nosso. A partir dessa viagem de 1996 optou-se: “Nós vamos copiar o que eles fazem? Vamos copiar.” Existe um risco? Talvez o mesmo que você tenha que desligar mais fornos, mas a nossa vida média, hoje, só faz um mês que eu saí da CBA, hoje está perto de dez anos.
P/1 – Quer dizer, de cinco passou pra praticamente dez anos. Dobrou.
R – Exato. Eram 48 meses, eram quatro anos, pulou pra dez anos. Então, baseado numa viagem. Foi em 96. Aí, quando foi em 2000, nós tínhamos que fazer mais rápido, porque parou durante esse tempo, de 92, não se fez mais salas fornos. Quando foi em 2000, o Doutor Antônio falou: “Nós vamos fazer mais salas fornos.” Só que nós tínhamos que ver a parte ambiental. E nós tínhamos que ver o que há de melhor no mundo na parte do Söderbeg. Então nós fomos para a Noruega. Fomos para a Noruega, ficamos uma parte na Suécia, nós fomos à Suécia, eu não me recordo o nome da cidadezinha, onde a Alstom tem uma... alguns... algumas... como é que se fala? Alguns equipamentos piloto, onde você faz o teste em miniatura. E nós fomos nessa fábrica deles Aí ficamos uns quatro dias nessa fábrica e depois nós fomos para a Noruega, aonde nós fomos visitar as fábricas realmente de Rolander, Ardau, Carmoi, só a respeito de forno. Ficamos uns 20 dias viajando. E finalmente nós fomos à Holanda, onde tinha a fábrica dos carros da (Rencon?), que nós optamos também por usar veículos (Rencon?) e não mais o semi pórtico, que nós tínhamos iniciado, em 1976. Que nós começamos automatizar e começamos a ter uma redução de mão de obra, porque o veículo era muito rápido e eles usavam esses equipamentos da Noruega, então nós passamos a usar esses veículos (Rencon?). Que são veículos movidos a diesel, com sistema pneumático de quebra, pneumático não, hidráulico de quebra.
P/1 – Então, em que momento vocês começaram a automatizar a fábrica?
R – Entenda bem, de automação mesmo, na parte de computação, porque antigamente você tinha que... o técnico chegava no forno, subia, abaixava o forno por causa da voltagem. Isso daí, na sala 120, já entrou automatizado. Nós já tínhamos um sistema de automatização, nada tão evoluído como tem hoje, na parte técnica computadorizado hoje. Mas nós já tínhamos uma parte de automação, que já fazia essa parte. Em 1993, nós começamos realmente a colocar os computadores nas salas. E realmente fazia uma leitura, então ele fazia um acompanhamento, você começou a ter... porque o maior insumo de uma produção de alumínio é o quilowatt-hora, é a energia que você gasta para produzir o quilo de alumínio. E nós começamos a ter uma redução de quilowatt-hora, nós começamos a reduzir o quilowatt-hora, em função dessa parte de automação, muito mais aprimorada, por assim dizer. Então, isso a partir de 93. Em 2000, quando nós fomos para Noruega, já tínhamos essa parte automatizada. Mas nós começamos também já a pensar em iluminar uma parte do processo que chama-se efeito anódico. Efeito anódico, ele, o que acontece? Quando você começa a cair a porcentagem de óxido no banho, você começa a ter o flúor combinando com o carbono, formando o tetra fluoreto de carbono. E todo o gás, sob pressão, ele é isolante, ele dificulta, são bolhas que formam embaixo do (____________), então a voltagem sobe e ocorre o efeito anódico. E nós precisávamos dar um jeito de automatizar aquilo ali, por quê? No processo normal, o funcionário vai e introduz uma vara, uma vara verde, uma vara de eucalipto mesmo, introduz dentro do forno, e aquilo ele faz com que haja uma ebulição de metal lá dentro, uma ebulição, e os gases saem. E nós já estávamos, eu já estava fazendo esses ensaios há algum tempo, porque eu sabia, que fora, no Canadá, na própria Espanha, já tinham esses ensaios, já faziam esse tipo de trabalho. E nós desenvolvemos, mas nós queríamos ir mais longe, nós queríamos automatizar isso, chama-se sopro. Aí que nós conseguimos colocar, com esses veículos, porque você precisava quebrar os fornos para depois adicionar o sopro. Foi aí que nós introduzimos os carros (Rencon?) na fábrica, e nas salas, na sala 5. Em 2000, isso aí.

P/1 – Então, esses carros, eles andam através dos fornos, fazendo esses sopros.R – Isso. Não, ele só quebra.
P/1 – Ah, tá.
R – E o computador... a automação ordena que haja um sopro no forno. Então você faz um programa, quando você coloca nesse programa prá que haja o sopro dentro do forno. Em tão isso aí, realmente, inclusive esse trabalho, que nós apresentamos em (Cazaroski?), é a respeito disso. Que eles não conseguiram fazer funcionar direito na Rússia.
P/1 – Aí você fez uma viagem prá Rússia prá poder apresentar essa tecnologia?
R – Exatamente. Nós apresentamos, não só eu, fui eu e um amigo meu, que nós levemos prá Rússia esse trabalho, o nome dele é Elias Sinfrônio Neto. Nós dois fomos lá, para a apresentação desse trabalho em (Cazaroski?). Em (Cazaroski?) tem uma das maiores fábricas do mundo da (Russau?), que ela tem, só para você ter uma idéia, nós produzimos 475 mil toneladas de alumínio, eles produzem um milhão de toneladas no mesmo lugar. Quer dizer, é o dobro. Eles têm 25 salas fornos. Então é enorme a fábrica deles. E nós fomos visitar essas fábricas também.
P/1 – E tecnologicamente havia uma diferença entre...
R – Não, não... a CBA está mais evoluída, muito mais evoluída. A CBA nesse tipo de forno Söderberg, a CBA hoje é um, como se fala, é uma referência. A CBA é uma referência, é uma referência.
P/1 – Nessa... você se tornou gerente quando, Otávio?

R – Em 2000, vamos voltar mais, em 1998 eu passei a chefiar a sala 2 e 4, passei a chefiar mais uma sala. Em 2001, eu passei a chefiar a sala 2, a sala 4, e a sala 5, 2001, 2002, que começou a se partir a sala 5. Em 2006 eu passei a chefiar 1 e 3 também. Então eu fiquei com a sala 1, a sala 2, a sala 3, a sala 4 e a sala 5. Em 2005 partiu-se a sala 6, eu fui chefe da sala 6. Em 2007, a sala 7, e eu passei a chefiar. E todas essas salas mais novas, eu que treinava o pessoal, sempre eu que treinei todo o pessoal das salsas foi eu que treinei. Eu que parti os primeiros fornos, sempre eu que parti os primeiros fornos, depois eu deixava para o pessoal partir o resto.
P/1 – O que é partir o forno?
R – É o startup. Você dá o startup no primeiro, eu fazia questão: “Esse é meu.” O primeiro e o último, eu que fazia o startup. Em 2010, em 2008, final de 2008, eu passei a gerenciar todas as salas fornos, inclusive as manutenções mecânicas, e eletro-mecânica. Aí eu passei a chefiar todas as salas, no total de 1025 pessoas, 15 engenheiros, perto de 102 técnicos, e o restante de operadores.
P/1 – E como é que é feita essa manutenção dos fornos, tanto a parte mecânica como elétrica. Que tipo de manutenção demanda?
R – Quando você desliga o forno, antes de você desligar, você desliga o forno, retira todo o metal que tem dentro dele, todo o metal líquido, todo o banho, você recupera todo aquele material que está em volta, que é sólido, etc, tudo britado, nada se perde, tudo se transforma (risos). Tudo aquilo é retirado. Aí você faz a (drurição?) do forno, faz a (drurição?) do forno. Tudo é muito mecanizado, muito mecanizado. Vêm as retro escavadeiras, elas raspam tudo aquilo, aí entra o pessoal do refratário, o pessoal do refratário fazendo, colocando os tijolos, colocando os tijolos, são várias camadas de tijolos, colocando os blocos católicos embaixo, e a mecânica vem e solda, faz a solda nas barras católicas, são umas barras de 160 por 150, é onde eles fazem as soldas. Aí coloca-se o anodo, faz-se um pré-aquecimento e volta com ele novamente em (marcha?). Isso demanda aproximadamente dez dias, para ele voltar a produzir.

P/1 – Então entre a destruição de um forno e a formação de outro demora mais ou menos um s dez dias?
R – Dez dias, dez dias. Tem que ser o mais rápido possível. Porque ele parado, ele está deixando de produzir. Então você não pode... porque a gente tem as metas, nós temos metas a serem, porque as metas a serem cumpridas. Se você não der aquela produção no ano, você tem que responder por que você não está tendo aquela produção no ano. Então você tem que desligar menos fornos, você tem que diminuir o tempo de reforma, tudo isso está encadeado.
P/1 – Me diz uma coisa, Otávio, você estava dizendo que, hoje, por exemplo, se a gente for analisar o mercado internacional, tecnologicamente falando e comercialmente falando, como que a CBA está dentro do ranking mundial?

R – Muito bem, muito bem. Eu falo prá você que em parte de, parte de fornos, de eletrólise, eu diria que você tem fornos hoje de 300 até 500 mil ampères, na parte de pré-cozido. Na parte de tecnologia Söderberg, parou, não se fabrica mais forno Söderberg. Hoje você está na parte de pré-cozidos. Eles são muito eficientes, muito eficientes, parte de ambiental eles são muito bons, eles são totalmente enclausurados, são muito bons. Agora, na parte de você colocar a parte de laminados, não é bem laminados, na parte de extrusão, na parte de chapas, na parte de transformação plástica de maneira geral, a CBA é insuperável. A CBA tem os melhores equipamentos do mundo, está na CBA. O que há de primeira, o que há de melhor no mundo está dentro da CBA.
P/1 – E me diz uma coisa...
R – Eu não sou puxa saco hein!
P/1 – Tudo bem... (risos) Vamos dizer, essa coisa do forno, que você falou do pré-cozido, que é uma tecnologia hoje, pelo que você está dizendo que ela é mais moderna e é mais eficiente. Qual que é a dificuldade de implantar hoje essa tecnologia?
R – Custo. O custo. Prá você colocar, eu não me recordo o quanto é o quilo, é dólar por tonelada... então, você teria que ter uma produção muito grande, na CBA, na CBA você teria que produzir no mínimo 250 mil, fazer salas fornos prá no mínimo 250 mil toneladas, parecem inviáveis, para você colocar junto na CBA. Outra coisa: espaço, energia, matéria prima. Então tudo isso vai dificultando.
P/1 – Hoje a CBA produz quantas toneladas ano você falou?
R – Quatrocentos e setenta e cinco mil.
P/1 – Então não atenderia essa demanda de 250. Eu não entendi um pouco isso.
R – Não, não. Prá você... prá ser viável, nós vamos fazer salas fornos, vai... nós vamos... você chega: “Otávio, nós vamos... eu estou com uma grana preta aqui, vamos montar salas fornos. Vamos produzir 25 mil toneladas ano, cem mil toneladas ano, 150 mil toneladas ano.” Já começa a ficar bom, dependendo do acordo que você tem com a parte de energia. Se você vai ter uma energia barata, um contrato a longo prazo barato, ótimo. Cento e cinqüenta mil toneladas ano começa a...

P/1 – Ficar viável no bolso...
R – Mais ou menos, mas o ideal seria 250 mil toneladas ano, daí prá cima. Porque o seu gasto vai ser muito grande prá você produzir pouco.
P/1 – Me diz uma coisa Otávio, se você... quais foram os maiores desafios que você enquanto pessoa enfrentou na CBA, fora aquele que você nos contou de 93, quando caiu o telhado? Que outros desafios você enfrentou?
R – Sempre que você vai fazer uma partida de sala, sempre é um desafio, sempre é um desafio. Você tem que montar uma equipe, você tem que pegar uma... logicamente você fala: “Você mescla.” Lógico, você mesclava uma parte de pessoal novo com uma parte do pessoal já mais experiente, mas é sempre um desafio. E a gente sempre conseguiu bater recorde. Recordes atrás de recordes no tempo de partida, no tempo do startup. Nós chegamos a partir salas aí de 190, essa última aí de 196 fornos, nós conseguimos fazer em três meses. Isso é um tempo recorde. Desde ligar o primeiro forno, até o último, em três meses, isso é um tempo... é muito curto, muito curto. Então a gente sempre, a gente sempre lançava esses desafios prá gente mesmo. “Pessoal, nós vamos conseguir partir em tanto tempo.” E a gente fazia um programa, dava esse programa para a diretoria, e a gente sempre gostava de ganhar um tempinho em cima disso ainda. A gente sempre, sempre foi uma... não só da minha pessoa, como da minha equipe, sempre teve... sempre fazer o melhor, não estacionar, sempre tentar produzir mais, sempre conseguir produzir mais com um preço menor, sempre a gente correu atrás de desafios.
P/1 – E quais foram os maiores desafios enfrentados pela CBA, durante esses anos todos que você trabalhou lá?
R – Nós tivemos alguns apagões, nós tivemos alguns... nós tivemos uma vez uma... um problema que teve um tipo de um tornado, quem passou na região de Cabreúva, não sei se vocês estão lembrados disso, passou na região, não faz tanto tempo... não sei precisar prá você quando foi, nós ficamos com a CBA somente com energia própria. Essa energia própria, quando você fala, somente os fornos ficaram aquecidos, eles não produziam, só ficavam aquecidos, durante 24, quase próximo 24 horas. Nós tivemos alguns problemas nas salas, que deu problema de retificadores de corrente, e tal, tivemos esses problemas também, foram desafios. Tivemos um problema também na ruptura na barragem de lama, também que ficaram, quem vai falar sobre isso vai ser o Pozer, é a área do Pozer, então, teve desafios.
P/1 – Essa barragem ela rompeu e aí ela...
R – E ela começou a sair, ela saiu numa... como é que fala... num tubulão e quem diz que parava aquele tubulão. Então, eu estava de férias, na época. Mas o diretor ficou três dias sem sair do lado desse tubulão, fazendo e colocando concreto em cima, até que eles fizeram uma comporta e colocaram essa comporta. Está que nem aquele negócio que está vazando lá no Golfo do México, um negócio terrível... foi uma... como se fala, foi um desafio muito grande prá segurar. Mas é a área do Pozer que eu tenho certeza que ele vai tocar.

P/1 – Se você fosse analisar os macros da trajetória da CBA, quais seriam, na sua visão, que deu, assim, uma mudança de produção. O que foram marcos?
R – A CBA, quando eu entrei na CBA eu falei prá você, ela fazia 23 mil toneladas ano, hoje ela faz 475 mil toneladas ano. Então a CBA nunca parou, ela sempre foi uma empresa que acreditou no potencial dela, e acreditou no Brasil, principalmente. Então, ela sempre... ela nunca parou, ela sempre ficou comprando equipamentos novos, sempre comprando o que havia de melhor no mercado. Então, ela sempre acreditou. Se você vir as outras fábricas do Brasil, nenhuma delas cresceu como cresceu a CBA. Esse espírito empreendedor do Ermírio de Moraes, sempre foi ponto forte. Você pega as fábricas da ALCOA, praticamente tem, só tem a de Poços, pequenininha, nunca saiu daquilo. Tem lá em São Luís do Maranhão, fez aquilo e parou. A Albras, a Vale Sul do Rio de Janeiro fechou, chegou a fechar, a Aratu, na Bahia também está, como se fala, está mais prá ser vendida do que outra coisa, e a CBA não, a CBA só cresceu. Só cresceu porque o pessoal acreditou nela. Acreditaram no potencial dela. O Ermírio de Moraes sempre acreditou.
P/1 – Me diz uma coisa, havia uma troca de tecnologia ou de informação entre essas empresas de produção de alumínio no Brasil, ou não? Ou era uma coisa que tinha uma troca de informações... Você falou que viajou para a Albras para ajudá-los, mas tinha uma...
R – Mas entenda bem, eu conseguia, porque eu tinha amigos, eu conseguia informações de fora, mas eram informações pessoais, então fazia uma troca de figurinhas. Mas eu, praticamente não dava nada, e pegava tudo (risos). Eu sempre conseguia algumas coisas de fora que eu conseguia melhorar a parte de processo, por informações de fora.

P/1 – Que tipo de informação que você ajudou a melhorar...
R – O que a gente podia ganhar em perda anódica. Então eu pedia informação, e eles me passavam. “E fluoreto, como é que vocês estão fazendo?” Então também com mais fluoreto ou menos fluoreto. “Dá pré você reduzir esse quilowatt? Eu posso arriscar?” “Pode arriscar, que vai dar certo.” Então, eu conseguia essas informações. Conseguia essas informações.
P/1 – E me fala uma coisa Otávio, em termos de clientes, quem são os clientes hoje, da CBA, e como é que foi, assim, ampliando o mercado da CBA?
R – Entenda bem, você está falando de uma área, Márcia, que não é o meu, entenda bem, material acabado não é o meu forte. Mas eu participar, por exemplo, a Belmetal é uma grande, é um cliente da CBA. Você tem a Tetrapak, que a Tetrapak hoje virou a menina dos olhos, que realmente ela é... essa qualidade de material que a CBA está vendendo, está conseguindo... foi um... teve um custo alto prá CBA... o que perdeu-se de material, tentando, prá chegar nisso daí, então virou uma vitrine mesmo. Isso daí virou uma vitrine. A Tetrapak realmente é a menina dos olhos da CBA. A Belmetal que, tem outras empresas, mas não é... como não era a minha área, eu trabalhava na parte pesada, por assim dizer, isso é mais na parte de transformação plástica, que eu não me recordo, assim...
P/1 – Não tem problema... Otávio, essa transformação plástica é feito lá também, na...
R – Tudo. É o que eu falei prá você, e a maior fábrica integrada do mundo. Até eu ia trazer a minha agenda. Na minha agenda, na capa da minha agenda tem a fábrica da CBA. Aí eu ia mostrar prá você o que é a salas fornos, o que é alumínio, e o que é a transformação plástica. Quando você vê aquela fábrica gigante, enorme que ali é feito tudo, desde a matéria prima, desde a bauxita até a telha, o papel, a tetrapak, o perfil, o cabo. A CBA faz até a trefila, que faz o cabo elétrico de alta tensão, que você vê nessas torres, a CBA faz.
P/1 – Vamos voltar um pouquinho, agora, pro lado pessoal. Como é que você conheceu a sua esposa e onde?

R – A minha esposa... é até uma história interessante, quando eu morava, já tinha assim, aqueles flertes antes, já flertava com ela quando eu tinha depósito de vinho, aquele negócio todo. E aí no Carnaval de 72, em fevereiro de 72, no Carnaval, eu já tinha amizade com ela, então começamos a brincar e tal, e aí que começamos a namorar. E vim casar no dia 18 de abril de 1974. Nós casamos e fomos morar em Alumínio, na cidade de Alumínio.
P/1 – Prá ficar próximo à fábrica e tudo?
R – Na realidade, deu uma zebra, sabe? Eu ia morar em um prédio que tinha em São Roque, e chegou na hora a mulher falou que não ia alugar mais e eu falei: “E agora, como é que eu faço?” Aí eu fui no diretor, falei: “Preciso de uma ajuda, preciso que o senhor me dê uma ajuda. Eu ia conseguir um apartamento lá no prédio em São Roque, e eu precisava que o senhor me arrumasse uma casa.” Ele me arrumou uma casa em tempo recorde, porque a Vila Industrial era muito grande lá. Hoje andaram derrubando muitas casas, mas era muito grande. Eu morei lá 14 anos.
P1 – Então, assim, perto da fábrica tinha uma Vila Industrial que os funcionários moravam lá...
R – Tem, até hoje tem uma Vila, mas já um pouco menor. Não me recordo se eram 640 casas, se não me engano. Eu lembro que tinha. Porque na época, quando foi feita a CBA, voltando outra vez, havia a Vila Industrial. Então se você não tivesse essa Vila, você não conseguia... como se fala, tem jeito prá você trabalhar. Então tinha casa, as casas, você tinha farmácia, você tinha o cinema, o açougue, você tinha o barbeiro, você tinha a quitanda, você tinha a padaria. Tinha um quarteirão que era tudo isso. Foi montada essa Vila Industrial, em 55 quando montou a CBA.

P/1 – E todo esse comércio era fornecido, era terceirizado ou era a própria...
R – Terceirizado, terceirizado. Teve uma... eu não me recordo, mas uma vez comentaram que a parte de açougue, parece que a própria companhia que administrava. Mas também, depois, deixaram. Quando eu mudei, quando eu comecei a trabalhar na CBA, ainda tinha a farmácia, que era no quarteirão, tinha ainda o mercado do SESI, tinha a quitanda, a padaria, o cinema e o bar. E o bar era interessante, o bar não vendia pinga, não podia vender pinga, mas vendia bagaceira, quer dizer... (risos).
P/1 – E você morou 14 anos nessa Vila?
R – Quatorze anos. Fui mudando de casa, ia trocando, sempre prá uma melhor, logicamente...
P/1 – E isso, essa melhora de casa estava ligado ao cargo que você ocupou?
R – Com certeza.
P/1 – E aí, você falou que o seu primeiro filho nasceu quando você estava na Espanha, e você morava nessa Vila.
R – Já morava na Vila Industrial, e a minha esposa, ela é matemática, e ela começou a lecionar, logo que a gente casou, ela se formou, e ela começou a lecionar no ensino Roberto Simonsen, que era uma escola técnica, que um ex-diretor nosso montou essa escola. E ela começou dando uma aula, duas aulas, três aulas, e quando chegou... passado um tempo ela dava todas as aulas de matemática, desenho e física. Então a gente se incorporou bem a sociedade aluminense ali no centro.

P/1 – E quando vocês saíram de morar na Vila, vocês foram morar onde?
R – Eu vim morar... eu já tinha a minha casa lá em São Roque. Eu tinha construído, como eu sou de São Roque, então, tinha feito a casa em São Roque, mas eu não mudava... o diretor, o falecido Doutor Figueiroa, eu falava em mudar ele: “Ah, eu vou dar uma nova casa para o senhor.” Ele sempre tinha uma (_____________), e eu também não ficar, assim, que não ficasse chateado comigo, e eu ficava lá. Até que quando ele veio a falecer, daí eu pedi prá mudar, e mudei. Os meus filhos já estavam vindo pro ginásio, já estavam no ginásio em São Roque, já estavam mais crescidos.
P/1 – Você tem quantos filhos Otávio?
R – Eu tenho dois.
P/1 – O nome deles.
R – Fabrízio e Flávio. O Fabrízio é o mais velho e o Flávio é o mais novo.
P/1 – E qual a atividade deles hoje?

R – O Fabrízio, ele se formou na Unicamp, ele é estatístico, trabalha agora na Schincariol. Ele trabalhava na Nielsen, aqui no quilômetro 21, mas ele recebeu uma oferta da Schincariol, e foi para a Schincariol no começo do ano. O Flávio é formado no Mackenzie em Ciências Econômicas. Estava trabalhando na Colúmbia, aqui em Alfaville, depois ele veio para a Deloitte, aí ele saiu da Deloitte que ele queria ir para o Canadá, ele ficou no Canadá, prá melhorar o inglês dele, e hoje ele está na Price, que o ramo dele é de... não é consultor, ele é auditor. Então ele está na parte de auditoria da Price. Os dois estão crescidos já.
P/1 – E como é que... ser pai para você trouxe alguma mudança na sua vida, suas crenças, ou alguma... o que significou ser pai para você, Otávio?
R – Ah, é uma coisa gostosa, lógico, você poder ver os filhos crescer, eu acompanhei esse crescimento deles, me dou muito bem com eles, com os dois, muito bem com os dois. Sou aquele pai ainda que coloca o dedo, ainda gosto de dar os meus palpites, que nem o Flávio, que quer comprar um apartamento aqui em São Paulo, eu fico falando para ele esperar um pouco, que o preço está muito... subiu demais, por que não mora em São Roque, é onde é mais barato, e viaja, mas ele quer morar aqui. Então eu ainda... O mais velho mora em São Roque, ele mora em São Roque, ele tem a casa dele lá, tem a chácara dele, então ele fica mais tranqüilo, mas o Flávio adora morar em São Roque, e como ele estudou no Mackenzie, ele ficava ali naquele miolinho ali da Consolação, ele sempre morou ali por perto, e quer morar ali por perto. Eu falei: “Ali é muito caro.” Então eu costumo ainda... mas nos damos muito bem, a gente sai jantar sempre que é possível, todo final de semana que a gente se reúne, então a gente sempre está junto.
P/1 – Como é que era o cotidiano da família de uma pessoa que trabalhava na fábrica, e pelo que você fala, também não tinha muito horário. Porque quando aconteceu algum problema, não importava a hora...

R – Diga-se de passagem, Márcia... antes eu ficava, como eu morava em Alumínio, eu ficava muito na fábrica, eu ficava muito na fábrica. Eu entrava sete horas, seis e meia, e eu saía da fábrica às sete e meia, oito horas. Realmente eu ficava muito dentro da fábrica. Não sei, a metodologia do trabalho, você vai evoluindo nisso daí. Então, se eu não fizesse eu achava que não estava bem feito, e conforme eu fui subindo dentro da minha qualificação, eu cheguei, graças a Deus, eu cheguei, e falei: “Se eu continuar assim, ou eu morro ou eu vou começar a fazer uma coisa mal feita. Ou eu começo a delegar, ou eu começo a passar para as pessoas o que eu sei, ou senão eu vou morrer louco.” E devagarzinho eu fui passando, isso já faz muitos anos, tanto que quando foi pra eu sair agora da fábrica, vieram falar comigo: “E agora, como é que a CBA vai fazer?” “A CBA não vai fazer nada, a CBA vai continuar do jeito que está, porque o pessoal que está ficando sabe tão bem ou melhor do que eu.” Porque eu ficaria muito chateado, muito chateado se porventura eu viesse a saber que o departamento não está indo bem, porque o pessoal não sabe. Porque tudo o que eu sabia eu passei. Porque tudo o que eu sei eu passei a eles a eles. E o pessoal tem competência, o pessoal é competente. Porque eu deixei uma equipe.Se o aluno não aprender é porque o professor não ensinou, tem que partir desse princípio.

(TROCA DE FITA)

P/1 – Você falou que ficava na fábrica muito tempo, e depois quando você mudou, nesse processo seu de trabalho, você começou...
R – Conforme foi aumentando a minha responsabilidade, os meus departamentos, enquanto estava numa sala, logicamente eu conseguia, realmente eu fazer. Quando foi aumentando para duas, três, quatro, eu falei: “Eu não tenho esse...” Eu fico muito satisfeito de saber que eu mudei, porque tem gerente que não muda, continua sendo centralizador. E o nosso diretor, nesse aspecto, o Renato Brito de Moreno, o atual diretor, ele sempre ensinou prá gente isso, ele sempre foi muito crítico nessa parte: “Pessoal, vocês tem que saber delegar, vocês tem q eu saber delegar. Não podem vocês centralizar porque vocês não vão suportar o peso, e está errado, não existe mais isso. Isso é uma coisa que já foi superada. Esse sistema de trabalho centralizador não existe mais.” E com o passar do tempo, realmente, eu fui mudando, mudando e hoje eu tinha, com as reuniões que eu tinha ultimamente, o pessoal administrava tranqüilo, tranqüilo.
P/1 – E Otávio, você de aposentou em que ano?
R – Em 1997.
P/1 – E você ficou trabalhando até 2000.
R – E o mês passado.

P/1 – E o mês passado. E você saiu agora por quê?
R – Entenda bem, o Renato, ele já tinha conversado há dois anos, quando eu fui prá gerente, o Renato já tinha falado comigo que a CBA, como outras empresas, elas têm os gerentes, os níveis, eles têm um prazo, um prazo não, não é esse o termo, você tem uma idade x que você sai. Ele falou: “Eu não vou falar prá você que é 60, se é 61, se é 62, 63, quanto é, mas tem uma idade, cara. Então eu já estou deixando você preparado para isso.” Então eu estava preparado para isso. E há uns seis meses eu já estava, já estava dando a entender, tanto eu como o Poze, o Poze é um pouquinho mais velho que eu, que nós... estava chegando a nossa hora. Então nós fomos preparados para isso. Tanto é que o impacto, lógico, se você falar para mim: “Pô Otávio, então você é um sangue de barata 39 anos dentro de uma empresa, e...” Não, por mais preparado que você esteja, não é fácil. Você levantar... eu levantava todos os dias às quatro horas da manhã, e eu continuo levantando às quatro horas da manhã. Então, até eu perder esse vínculo, ainda, de horário, aí o que eu aproveito? Eu vou lá fora, fico fazendo um agá, e vou fazer a minha caminhada. Ando meus oito quilômetros todos os dias. Faço minha caminhada, depois venho, fico em casa, vou à escola com a minha mulher, que depois nós vamos chegar nessa parte, então eu tenho as minhas tarefas. Se amanhã eu vou fazer algum outro serviço, pode até ser, porque eu vou fazer 62 anos, mas eu não me sinto nenhum ancião, de jeito maneira. Tenho pique prá qualquer coisa. Se vai aparecer, não sei, não sei. Talvez eu volte a estudar, pode ser... eu sempre tive uma vontade de fazer direito, pode ser que eu volte a fazer isso.

P/1 – E o que você faz nas suas horas de lazer?
R – Por enquanto eu estou mexendo no meu jipe.
P/1 – Ah, você tem jipe, conta prá gente essa história aí. (risos) Conta essa sua paixão aí. (risos)
R – Como nós estávamos conversando anteriormente que o meu filho mais velho, quando ele entrou na Unicamp, ele queria ter um carro, mas ele queria ter um carro só prá ir até São Roque, com os amigos dele, fazer o oba oba. E eu fiquei preocupado, eu falei: “Ô Brízio...” porque a gente chama ele de Brízio. Falei: “Brízio, carro na sua mão vai ser uma desgraça, hein... você vai bater, você vai se machucar.” Ele falou: “Pai, mas eu quero comprar um jipe. Porque jipe, primeiro que ele não anda, já anda devagarzinho, então, se bater ele é forte.” Falei: “Precisa ver no quê, em que você vai bater, porque aí eu tenho que arrumar não só o jipe, como o carro dos outros.” Falou: “Não pai, fica tranqüilo.” E como o meu pai era... o meu pai foi mecânico, e na oficina tanto o meu pai como os meus tios sempre tiveram um jipe, e eu... tinha esquecido até disso. Falei: “Pô é uma boa, vou voltar a pensar num jipe, e meu pai me ajuda naquilo que precisar.” E nós fomos atrás e compramos um jipe Willys 1962, e estava meio meia boca e tal, fomos mexendo nele e arrumando, e meu pai me deu uma força e tal. Deixamos pronto para ele andar. Ele ficou andando com o jipe. Ficou andando até que chegou numa hora que o jipe não andava mais. Ele já tinha se formado, ele já não queria mais jipe, ele já queria um outro carro, já prá sair com as meninas, e tal, e o jipe ficou encostado em casa. Falei: “Vou dar uma reformada total nesse jipe.” Aí mandei na oficina, num funileiro, o cara fez toda a lataria, então o jipe ficou em ordem mesmo. Eu falei: “Mas puxa vida, se eu achar um jipe 1951...”, o 51 é um jipe muito procurado, é aquele que é quadradinho e tal. Falei: “Se eu achasse um jipe desse eu até comprava.” Aí o pessoal da fábrica todo mundo sabia que eu gostava de jipe, vieram falar comigo, até um rapaz de uma empreiteira de Itapetininga, da Tardelli. “Coitado, tem um senhor lá, que tem um jipe em Itapetininga, o jipe fica encostado na garagem dele. Ele tem vários carros antigos lá, Volks 62, Ford 29, e tal.” E eu liguei prá esse senhor, o sobrenome dele é Gonzaga. Eu liguei pro tal do Gonzaga e realmente ele tinha esse jipe 51. Falou: “Eu quero quatro mil reais no jipe.” Eu falei: “Vou dar uma olhada nele amanhã, o senhor me espera?” “Espero.” Fui eu, meu pai, e meu filho lá, o meu filho caçula, mas eu já fui com o talão de cheques prá trazer o jipe, olha só as loucuras. Eu fui lá, olhei o jipe, o jipe precisava logicamente fazer algumas coisas. Falei: “Senhor Gonzaga, o senhor não quer abaixar o preço desse jipe?” Ele é um fiscal da fazenda aposentado. Quer dizer de dinheiro não precisa. “Se você falar mais uma vez em negociar o preço eu não te vendo mais esse jipe.” Falei: “Putz, por quê?” “Minha mulher não saiu nem aqui fora prá cumprimentar vocês porque ela não quer que eu venda esse jipe, porque esse jipe tem uma história aqui na minha casa, esse jipe foi do meu filho, quando o meu filho fazia faculdade.” “A mesma história é a minha”, falei prá ele, “mas eu pago os quatro mil pro senhor.” E ficamos conversando e eu vim com o jipe.O jipe só tinha uma lona em cima, estava chovendo, eu peguei uma chuva, até comentei com você, peguei uma gripe desgraçada, mas eu sei que eu mandei reformar o jipe, e o jipe está em estado de novo na minha casa. Aí, conversa daqui, conversa dali, falei: “Puxa vida, mas se eu achasse um jipe da época de 42, por causa da guerra... esse...seria o canal.” E apareceu esse jipe em Araçoiaba, em Araçoiabinha da Serra, em Araçoiabinha, perto de Araçoiaba da Serra. Era de um senhor que tinha uma casa de ração lá em Sorocaba, e eu comprei esse jipe 42 dele, depois de muita história, porque ele queria sete mil, e eu não queria dar os sete mil, valia, logicamente valia mais que os sete mil, mas eu não queria dar os sete mil, queria mais e eu queria menos, eu queria pagar menos. Eu sei que eu trouxe esse jipe e hoje esse jipe está na minha casa todo reformado, é um jipe todo equipado, no final do mês agora ele vai à exposição de carros antigos. Então realmente é um jipe da Segunda Guerra.

P/1 – Ele tem, você falou que ele tem até um negócio prá por o rifle.
R – Tem o porta rifle, tem o rádio de combate, tem o machado, a pá, tudo original, tudo original. A capota dele é original, tem os dizeres em inglês, atrás. A velocidade máxima 40 milhas, ele não sinaliza prá esquerda, só para a direita, tem uns lances lá. Então está todo... mas é bonito. Um jipe hoje desses, como não existe, como você falou que o seu marido queria um jipe, jipe hoje é um, como se fala... todo mundo quer ter jipe, então é caro ter um jipe hoje. Realmente, um jipe hoje, um jipe bom é quinze, dezoito mil. Um jipe, eu digo, não um 51, um jipe prá cima da casa dos 60, 64, 65. É só entrar no Mercado Livre você vai ver os preços.
P/1 – E qual é o outro lazer que você tem Otávio?
R – Entenda bem, eu tenho algumas orquídeas que eu tenho lá num viveiro, sempre tem alguma florida prá colocar na minha casa, mas assim, gosto de ir à escola da minha mulher, tem mais algumas coisas que eu preciso arrumar na escola, que ela tem o Sistema Kumon de Ensino, não sei se você já escutou falar, que é matemática, e ela dá aula de matemática, inglês e português, na cidade. Ela tem a escola dela e eu vou ajudar ela de vez em quando a fazer alguns trabalhos que são necessários. Mas é muito pouco tempo, Márcia. Eu parei faz exatamente 35 dias. Então, não deu tempo ainda de eu fazer. Eu tenho um monte de coisa, a minha casa que eu preciso arrumar, preciso acertar. Então eu estou tendo várias tarefas, por enquanto.
P/1 – E como é que era essa coisa das suas férias, vocês viajavam muito...
R – Férias, férias... as minhas férias não eram... eu viajei, eu viajei, eu fui pro Caribe, eu fui pra Cancun, eu fui pra Aruba, fui pra Curaçao, fui pra Margaretha, fui para a Europa com a minha esposa, fizemos alguns cruzeiros, então sempre aproveitei um pouco. Essa minha esposa dá a sua opinião também. Ela gosta de viajar.

P/1 – Me fala uma coisa Otávio, quais são as principais lições que você tirou da sua trajetória de vida.
R – Eu sempre achei que eu sempre podia fazer melhor, sempre achei. Eu sempre gostei de desafios, impressionante como eu gosto de desafios, não só na minha vida aqui profissional, de gerente de departamento, mas eu gostava, o que eu mais gostava era quando aparecia um desafio. “Nós precisamos melhorar esses dados de segurança. Nós precisamos melhorar esses resultados operacionais.” E eu adorava isso aí, então, sempre gostei disso. Então a minha vida sempre foi marcada por esse item de desafios. Então, ficar na mesmice eu nunca consegui. Às vezes esses desafios eu não os alcançava plenamente, como eu gostaria de ter alcançado, mas eu sempre procurava, sempre procurei fazer sempre o melhor. Ficar parado, nunca.
P/1 – Vamos voltar um pouquinho, você tocou num assunto interessante. Vamos voltar um pouco prá coisa da CBA. Como é que a CBA tratava essa questão da segurança dentro da fábrica?
R – Ponto de honra. Ponto de honra. A segurança prá nós sempre foi aquilo, já muito tempo, quando entrou a V&M na CBA, ela veio com essa coisa de impacto na parte de segurança, mas sempre nós vimos a parte de segurança, assim, como... não um ponto de honra, mas... como que fala... deixa eu explicar prá você, a coisa principal prá nós. Se houvesse um acidente prá nós, aquilo era... olha... estragava o dia, estragava a semana, estragava o mês, estragava tudo prá nós. E a gente sempre teve que, a salas fornos trabalha em três turnos, a fábrica toda trabalha em três turnos, seis por dois, então nunca pára, a CBA nunca pára, não pode parar, e todo o início de turno nós temos lá o DDS. O que é o DDS? É o Diálogo Diário de Segurança. Então, todo início de turno a gente se reúne quinze minutos antes, todos os funcionários se reúne e nós vamos tocar num ponto de segurança. “Pessoal...”, uso do óculos, um exemplo: “Olha pessoal, o óculos é uma coisa importantíssima, se você não tiver usando o óculos e vier um pingo de metal, ou vier um pingo de banho, ou ser projetado alguma coisa, você pode ficar cego. Então tem que usar óculos.” O capacete... então, todo dia tinha um ponto, nós já tínhamos até um roteiro mensal de todos os itens da parte de segurança. Se porventura ocorresse, isso a fábrica toda, não é salas fornos. Eu estou falando das salas fornos, mas a fábrica toda vê isso, se acontecesse um acidente, em alguma parte da fábrica, todos nós, porque na hora é disparado um email prá todo mundo, a gente pegava aquilo ali, aí não era mais um diálogo já, aí já passava a ser um... como você falou, uma palestra, era uma meia hora discutindo em cima daqueles pontos e a gente pedia opinião pro funcionário, não interessa a parte hierárquica dele: “Pessoal, alguém tem alguma coisa que possa ajudar nisto aqui? O que vocês estão enxergando aqui que possa a vir impactar nisso aqui, que possa melhorar. Alguém tem alguma coisa?” E surgiam muitas opiniões prá nós. Então, a gente sempre bateu muito nesta tecla de segurança. Sempre foi prá nós aí um ponto de honra, um ponto de honra mesmo.

P/1 – Durante esse tempo que você trabalhou, aconteceu algum acidente grave que você possa contar prá gente, e como é que foi?
R – Teve um acidente... eu tive um funcionário que trabalhava, trabalha até hoje na fábrica, esse... Alexandre o nome dele, aconteceu um acidente terrível com ele. Esse semi pórtico que eu trabalhava não era comigo ainda, eu trabalhava na sala 3, eu não era o chefe da sala 3 ainda, e esse semi pórtico, eu tinha uma roda, um pneu gigante, um pneu grande e esse pneu estava dentro de uma carenagem de chaparia, fica só uma parte do pneu embaixo que rodava num... ele rodava num... é que nem um trem, ele só anda numa direção, prá frente e para trás, mas sempre no mesmo caminho, e esse rapaz ele era novo de fábrica ainda, aquilo que podia ter mil anos de fábrica, e tinha uma botoeria, e tinha um automatizado, esse semi pórtico. Então prá quê, isso daí? O semi pórtico você apertava o botão e ele começava: toin toin toin... a quebrar o forno e ia andando devagarzinho, mas bem, devagarzinho mesmo, sabe. E, enquanto isso, o operador ia encostando a carga, só a que tinha o sistema de segurança no equipamento, esse sistema de segurança, se porventura ele batesse em você, ele desligava o equipamento. E ele entrou no meio dessa parte de segurança, desse balancinho, que era o nome, que não existe mais esse equipamento, ele entrou no meio dessa parte de segurança, quer dizer, ele praticamente ele ficou anulando essa parte da segurança, e começou a empurrar a carga, no que ele afastou, ele enroscou o pé numa grelha, ele enroscou o pé e caiu. Caiu, e eu vi, foi pegando o pé dele, foi pegando o pé dele e foi engolindo o pé dele até arrancar a perna, e realmente arrancou a perna dele mesmo. Arrancou a perna dele. Esse rapaz só não morreu porque... hoje ele trabalhava conosco no nosso escritório, não perdia horário, só mesmo quando ele se sentia dor, porque ele colocou uma prótese, então às vezes ele sentia alguma dor e não vinha trabalhar. Mas um trabalhador normal, fazia o que a gente pedia prá fazer, ele fazia, na parte... ele fez um curso dentro da fábrica da parte de computação e informática, a CBA faz isso também. Então esse foi um acidente muito grave nas salas fornos. Foi um dos acidentes mais graves que nós tivemos. Mas entenda bem, você vai falar: “Puxa vida, ele é o culpado?” Porque ele entrou numa parte que não era para entrar. Tinha segurança o equipamento? Tinha segurança o equipamento. Ele entrou entre a parte que não era para entrar e o pneu, quer dizer...

P/1 – Me diz uma coisa, Otávio, você tem alguma história curiosa prá contar desse tempo todo que você ficou na CBA, de alguma coisa que aconteceu, alguma coisa engraçada, ou alguma coisa interessante.
R – Tem tantas aí que eu acabo esquecendo. História é que não falta. Tem história prá chuchu, aí, hein! Tem uma... quando os franceses foram embora, ficaram lá seis meses conosco, e o diretor era muito meu amigo, Antônio de Castro Figueiroa, era muito meu amigo mesmo, isso é verdade não é história, é verdade, e os franceses foram embora, e vieram falar com o Doutor Antônio, que a equipe que a CBA tinha, era uma equipe que para cada francês, precisava três brasileiros. Então, aquilo que eles tinham falado com o Doutor Antônio: “Na Europa, a nossa hora tonelada é homens hora tonelada, homens hora tonelada prá produzir uma tonelada precisava de xis homens na Europa, aqui precisava de três vezes mais.” E o Doutor Antônio falou, o Doutor Antônio de Castro Figueiroa... Falei: “Ah Doutor Antônio, Doutor Figueiroa os franceses vieram aqui e falaram que para cada brasileiro, para cada francês precisa ter três brasileiros.” Aquilo acabou, Figueiroa era um homem muito correto, um homem que...um nacionalista ferrenho, sabe... nossa... E ele todo dia, nós estávamos partindo lá a sala, a sala 1 ainda, todo dia ele ia lá na fábrica, todo dia ele estava no departamento. E eu era... quando ele chegava eu já estava do lado dele. E ele chegou, fui cumprimentá-lo, e ele não me cumprimentou. Falei: “Putz, hoje ele está com a macaca.” Aí ele foi olhando, ele viu os resultados na lousa de cada forno, como estava, foi anotando, daí ele olhou prá mim e falou: “Guzzon.” Ele falava assim sabe, um mineiro ele, ele tinha uma mania ele chegava assim e batia do jeitinho de militar, ele batia continência sabe? Falei: “Pois ao Doutor.” “O senhor sabe o que o francês falou pro Doutor Antônio?” “Não sei, eu não estava junto, como é que eu vou saber.” “Que prá cada francês precisa três brasileiros.” Eu falei: “Agora preciso matar a pau esse homem.” “E ele falaram quantos franceses precisam prá um Figueiroa?” “Ah, o senhor precisa se acalmar...” Aí eu já fiquei, já fiz o (_______), “O senhor precisa se acalmar.” Porque ele Figueiroa. “Os franceses falam prá ele.” Ele ficou todo cheio... Mas tem, tem bastante história... puta, tem cada uma lá que... mas agora não me recordo...
P/1 – E como é que era a convivência com o Doutor Antônio, você chegou a conviver, chegou a ter contatos com ele?
R – Lógico, lógico... depois de tantos anos... o Doutor Antônio gostava muito das salas fornos. Ele gostava da fábrica inteira, mas ele, Doutor Antônio tinha uma coisa com ele, ele entendia do processo, ele entendia do processo. Então, se você viesse perguntar alguma coisa, não quisesse enganar ele, fosse franco. “Sabe?” Muito bem se não sabe fala: “Não sei.;” Senão ia cair do cavalo, ia cair do cavalo mesmo, porque ele sabia do processo. Ele fazia questão de entender. Logo que nós partimos a sala, a salas fornos 120, ele ia lá e ele queria, ele queria ele fazer como, medir metal, como medir anodo, ele queria saber essas coisas como fazer, e ele queria fazer. Tanto que eu passava a ferramenta: “Óh Doutor Antônio, cuidado, hein! É pesado, olha o campo magnético, cuidado! Olha aí.” Mas ele gostava de ele fazer. Impressionante. E ia lá na laminação, tudo o mais... Na minha área, que ele ia lá, eu fazia questão de recebê-lo, ele fazia questão de fazer, não ver você fazer, ele fazer, ele fazer.

P/1 – E teve algum fato que ele questionou ou ele te perguntou...
R – Ah, ele sempre questionava, sempre... ele ligava. O Doutor Antônio ligava... não ultimamente... nos últimos, falar aí... nos últimos oito anos, seis anos, mas antes disso era direto no telefone. Se subia... se algum índice piorava, podia ter certeza... queria falar com ele era só piorar o quilowatt-hora... (risos), era só cair uma eficiência, ele ia ligar prá saber o porquê, o que aconteceu. Ele queria saber por quê? Tem uma fotografia lá, se você tivesse falado eu teria trazido, quando eu fiz 30 anos de fábrica, a gente foi homenageado, não só eu como vários lá, então nós fomos tirar uma foto e logicamente o meu metro e noventa não chega perto dele, e ele é muito maior. Então na hora de tirar a foto, eu estava do lado dele, ele pegou e ficou abaixado junto comigo e dando risada, ficou do meu tamanho. Então... eu tinha uma certa amizade com ele, lógico.
P/1 – Me fala uma coisa Otávio, que valores você percebe na Votorantim, assim, quais são os valores marcantes que você percebe dentro da empresa.
R – Acreditam muito nas pessoas, eles investem muito nas pessoas, eles acreditam muito nas pessoas. Eu vejo isso.

P/1 – Prá finalizar, indo prá finalização, o que você acha de um Projeto de Memória da Votorantim, Grupo Votorantim?
R – Ótimo. Ótimo. Isso era necessário. É necessário. É necessário, porque tem que ter história. Tem que ter história. É o que eu falei prá você, eu comecei a escrever, eu devia ter... a gente depois vai ficando prá facilitar, mas todo mundo devia escrever como é a sua vida, porque vai chegando algumas partes e você vai se esquecendo. Então isso tem que ter, isso que vocês fazem é maravilhoso, é uma necessidade.
P/1 – Bom, prá finalizar, vou te fazer uma última pergunta, o que você acha de fazer parte do Projeto Memória, prá dar essa entrevista o que você achou?
R – Fico muito lisonjeado, muito lisonjeado eu sou... como você fala.. eu sou um privilegiado, sinceramente sou um privilegiado.
P/1 – E como é que foi dar essa entrevista prá gente.
R – Ótimo, ótimo, muito bom. E outra coisa, vocês deixaram a gente muito a vontade, muito a vontade.
P/1 – Então eu queria agradecer, Otávio, em nome do Grupo Votorantim e em nome do Museu da Pessoa a sua participação. Muito obrigada.
R – Eu que agradeço.

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